Contos e (En)cantos

Se eu fosse eu*
Clarice Lispector**


“Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil,
pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar
escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu
fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor,
sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo
de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de
ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de
pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque
até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que
por certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada
nova do desconhecimento. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras
chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.”

*A Crônica “Se Eu Fosse Eu” de Clarice Lispector foi publicada em 30 de novembro de
1968 pelo Jornal do Brasil e pode ser encontrada no livro A descoberta do
Mundo, que reúne as crônicas que ela escreveu para o Jornal do Brasil no
período de 1967 a 1973.

** Um dos maiores nomes da literatura brasileira do Século XX, nasceu na aldeia de
Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Com seus pais, fugiu de
seu país diante da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Ao
chegarem ao Brasil, fixaram residência em Maceió, Alagoas, onde morava Zaina, irmã
de sua mãe. Clarice tinha apenas dois meses de idade. Depois, a família mudou-se
para a cidade do Recife, onde Clarice passou sua infância no Bairro da Boa Vista.
Com 12 anos, Clarice mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, lugar onde
faleceu  no dia 9 de dezembro de 1977.

Pergunta para pensar no texto: O que aconteceria se você fosse você?

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