Contos e (En)cantos

Convidamos você a se enredar com a literatura para se encantar e contar outros contos dos dramas humanos e inumanos da existência, em especial, para conversamos sobre a experiência da finitude e do renascimento em tempos de COVID-19.

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Da calma e do silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim
versejar o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

Conceição Evaristo (Escritora negra, doutora em Literatura, transita entre o universo da poesia e da prosa. Nasceu em Belo Horizonte e, embora escreva desde a juventude, começou a publicar aos 44 anos, em 1990).

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