Contos e (En)cantos

Convidamos você a se enredar com a literatura para se encantar e contar outros contos dos dramas humanos e inumanos da existência, em especial, para conversamos sobre a experiência da finitude e do renascimento em tempos de COVID-19.

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Há cidades cor de pérolas onde as mulheres

Herbert Helder*

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente.
Onde às vezes param, e são morosas por dentro.
Há cidades absolutas, trabalhadas interiormente pelo pensamento das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos estremecem.
Mulheres que imaginam num supremo silêncio, elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas nem dedos.
Onde consumo uma amizade bárbara.
Um amor levitante. Zona que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores.
Para que algumas mulheres sejam cândidas.
Para que alguém bata em mim no alto da noite e me diga o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas cujos espinhos e sangues me inspiram o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence. A minha loucura, escada sobre escada.

Mulheres que eu amo com um desespero fulminante,
a quem beijo os pés supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria.
Em que toco levemente Imente a boca brutal.
mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço, dentro de ténues pérolas. Que racham a luz de alto a baixo e criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde a treva, de crime em crime – espero a felicidade de loucas delicadas mulheres.
Uma cidade voltada para dentro do génio, aberta como uma boca em cima do som. Com estrelas secas. Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial de sua cabeça ardente: –
E as altas cidades desenvolvem-se no meu pensamento quente.

*Poeta português, um dos mentores da Poesia Experimental Portuguesa, nasceu em Funchal, São Pedro, 23 de novembro de 1930; faleceu em Cascais em 23 de março de 2015

Questão para refletir sobre o texto: Em que cidade você habita?

Um comentário em “Contos e (En)cantos

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