Contos e (En)cantos

Teorias da alma (recorte) – Lya Luft*

[…] O homem estava pegando as chaves do carro (a mulher já tinha saído para levar as crianças à escola) quando tocaram a campainha. Vagamente irritado, pois já se atrasara bastante, ele abre a porta: – Sim? O rapaz alto e estranho, andrógino, belo e feio, alto e baixo, negro e louro, faz um sinalzinho dobrando o indicador: – Vim buscar você. Não era preciso explicar, o homem entendeu na hora: o Anjo da Morte estava ali, e não havia como escapar. Mas, acostumado a negociações, mesmo perturbado ele rapidamente pensou que era cedo, cedo demais, e tentou argumentar: – Mas, como, o quê? Agora, assim sem aviso sem nada? Nem um prazo decente? O Anjo sorri, um sorriso bondoso e perverso, suspira e diz: – Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste mundo, ninguém nunca está preparado? Está certo que você só tem 40 anos, mas mesmo os de 80 se recusam… O homem agarrou mais firme a chave do carro, que afinal encontrara no bolso do paletó, e insistiu: – Vem cá, me dá uma chance. O Anjo teve pena, aquele grandalhão estava realmente apavorado. Ah, os humanos… Então teve um acesso de bondade e concedeu: – Tudo bem. Eu te dou uma chance, se você me der três boas razões para não vir comigo desta vez. (Passava um brilho malicioso nos olhos azuis e negros daquele Anjo?)

O homem aprumou-se, claro, ele sabia que ia dar certo, sempre fora bom negociador. Mas quando abria a boca para começar sua ladainha de razões, muito mais que três, ah sim, o Anjo ergueu um dedo imperioso: – Espera aí. Três boas razões, mas… não vale dizer que seus negócios precisam ser organizados, sua família não está garantida, sua mulher nem sabe assinar cheque, seus filhos nada sabem da realidade. O que interessa é você, você mesmo. Por que valeria a pena ainda te deixar por aqui algum tempo?

Contaram-me essa fábula, que já narrei em outro livro, e nele quem abria a porta era uma mulher. A objeção que o Anjo lhe fazia antes de ela começar a recitar seus motivos era: “Não vale dizer que é porque marido e filhos precisam de … … .

Essa historinha fala do quanto valemos para nós mesmos, do quanto valemos por nós mesmos, do que realmente sentimos e pensamos sobre nós.

Alguém me disse, tranquilamente consciente de suas limitações e suas conquistas: – Se eu hoje aos 61 encontrasse o rapaz idealista que fui aos 18, não me envergonharia de apertar-lhe a mão, e o olharia nos olhos sem ter de baixar os meus. Fez esse comentário sem laivo de solenidade ou autoglorificação, antes bem-humorado. Aquela doce ironia com relação a si mesmo que não é desprezo mas amor. Quantos de nós podemos dizer isso? Com que argumentos persuadiríamos o anjo visitante de ainda não nos levar

motivo para refletir sobre a passagem do tempo e nosso crescimento como seres humanos. Em como podemos nos programar, resgatar, desestruturar, reconstruir, boicotar, ou investir nossa cota de humanidade em um projeto pessoal que faça algum sentido. Boa razão para pensar no valor de ter valores; de avaliar a vida, não apenas correr pela sua superfície.

Interrompemos de vez em quando nossa atividade para isso – ou nos atordoamos na agitação da mídia, da moda, do consumo, da corrida pelo melhor salário, melhor lugar, melhor mesa no restaurante, melhor modo de enganar o outro e subir, ainda que infimamente, no meu ínfimo posto? “Ah, eu sigo meus valores.” “Ensinei meus valores a meus filhos.”

Usamos esse termo com muita facilidade. Que valores, quais valores?

Aqueles segundo os quais tento viver, expressos não num eventual sermão ou palavreado, mas na maneira como vivo meu cotidiano em família, no trabalho, com amigos, com meus amores? Tendo consciência de que amando-nos mais poderíamos viver melhor, passaremos a trabalhar nisso.

Começamos tentando mudar de perspectiva: em lugar de enxergar só a parede em frente, contemplar um pedaço que seja de paisagem. Passar de vítima a autor de si mesmo é um bom movimento. Amadurecer auxilia na tarefa de ver melhor a realidade, e não é uma catástrofe. Ler ajuda.

Abrir os olhos para o belo e o positivo ajuda. Amar e ser amado ajuda.

Terapia ajuda. No mínimo, ajudará a mantermos a cabeça à tona d’água em lugar de nos afogarmos na autocomiseração. Reinventar-se inteiramente é impossível: o contorno dessas margens, o terreno de que são feitas está estabelecido. Trazemos uma chancela na alma – mas podemos redefinir seus limites. Quem sabe mudamos as cores aqui, ali abrimos uma clareira e erguemos um abrigo.

Muito vai depender do quanto esperamos e acreditamos. De modo geral acho que nos contentamos com muito pouco. Não falo em dinheiro, carro, casa, roupa, joias, viagens, que esses cobiçamos cada vez mais. Refiro-me aos tesouros humanos: ética, lealdade, amizade, amor, sensualidade boa.

Nossas asas não são tão precárias que tenhamos de voar junto ao chão ou apenas arrastar nosso peso. Nem somos tão covardes que não possamos botar a cabeça fora do

casulo e espiar: quem sabe no tempo do qual fugimos nos aguarde, querendo ser colhido, algo chamado futuro, confiança, projeto, vida. Ainda que a gente nem perceba, tudo é avanço e transformação, acúmulo de experiência, dores do parto de nós mesmos, cada dia refeito. Somos melhores do que imaginamos ser. Que no espelho posto à nossa frente na hora de nascer a gente ao fim tenha projetado mais do que um vazio, um nada, uma frustração: um rosto pleno, talvez toda uma paisagem vista das varandas da nossa alma.

Domesticar para não ser devorado Não é preciso consenso nem arte, nem beleza ou idade: a vida é sempre dentro e agora. (A vida é minha para ser ousada.)

A vida pode florescer numa existência inteira. Mas tem de ser buscada, tem de ser conquistada.

* Escritora brasileira, nascida em 1938, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul. Sua obra literária é constituída de poesias, ensaios, contos, literatura infantil, crônicas e romances.

Pergunta para refletir sobre o texto: Que tesouros humanos tu percebes refletir na própria imagem projetada no espelho?

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