Contos e (En)cantos

Todo mundo de seres e relações

Fernando Pessoa*

O mistério do mundo,
O íntimo, horroroso, desolado,
Verdadeiro mistério da existência,
Consiste em haver esse mistério

… Não é a dor de já não poder crer
Que m’oprime, nem a de não saber,
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente,
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério. …

Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar…

Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais. …

Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido.
Ó horror paradoxal deste pensar…


Alegres camponesas, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n’alma essa alegria!


*
Poeta, filósofo e escritor português mais universal, nasceu em 13 Junho de 1888, em Lisboa, Portugal. Figura central do Modernismo português, cultivou uma poesia voltada a temas tradicionais de Portugal e ao lirismo saudosista. Criou heterônimos, poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia. Morreu em 30 Novembro 1935, em Lisboa.


Questão para pensar sobre o texto: O que você mais pensa e menos compreende?

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