Contos e (En)cantos

Um olhar
Manoel de Barros*


Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio.
O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que
seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de
comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as
suas contradições. Acho que essa freqüência nos desencontros ajudava o seu ver
oblíquo. Falou por acréscimo que ela não contemplava as paisagens. Que eram as
paisagens que a contemplavam. Chegou de ir no oculista. Não era um defeito físico
falou o diagnóstico. Induziu que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela falou que a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica – como diria a nossa Lispector.
Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e viu que a Beleza é amarga. Tem
lógica? Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que avoavam no Ocaso
de seu avô. O Ocaso de seu avô tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar
porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus eram carniceiros. Ela não tinha
certeza se essa troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente podia. Que era só
despraticar as normas. Achei certo.

*Um dos principais poetas contemporâneos brasileiros, nascido em Cuiabá, Mato
Grosso, em 19 de dezembro de 1916. Nos seus versos, elementos regionais se
conjugavam a considerações existenciais e a uma espécie de surrealismo pantaneiro.
Faleceu em 13 de novembro de 2014, aos 97 anos, em Campo Grande, Mato Grosso do
Sul.

Pergunta para pensar sobre o texto: Você tem despraticado as normas para ver além
da lógica?

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