Contos e (En)cantos

Poema de sete faces – Carlos Drummond de Andrade*

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

*Um dos maiores poetas brasileiros do século XX da Segunda Geração Modernista,
nasceu em Itabira de Mato Dentro, interior de Minas Gerais, no dia 31 de outubro de
1902. Em 1930 publicou seu primeiro livro intitulado Alguma Poesia, que inclui
Poema de Sete Faces, que se tornou um dos seus poemas mais conhecido. Morreu
no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987.

Pergunta para pensar no texto: Quais são as suas faces?

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