Giras(sóis)

Girassóis da segunda semana de setembro ou cuidar e salvar vidas

Na trajetória histórica das sociedades capitalistas, é recorrente o fato das relações políticas e econômicas liberais atingirem um ápice de disputa, contradição e impasse, levando essa dinâmica, quase em sua totalidade, a resultar numa “virada conservadora”, antidemocrática. Isto é, levando ao poder lideranças políticas autoritárias e mantenedoras das formas, organização, privilégios capitalistas, agravando as péssimas condições de vida e sofrimento do conjunto da população, em particular, da classe trabalhadora (https://www.redebrasilatual.com.br/economia/2020/09/inflacao-alimentos-agronegocio-commodities/ ).

A despeito da barbárie brasileira de mais de 130 mil mortes e do aumento do número de infectados no mundo pelo coronavírus, dos negacionismos, do fundamentalismo religioso e tantas outras tragédias empreendidas pelas investidas capitalistas, procuramos revisitar com vocês, mesmo que brevemente, uma singular reflexão acerca dessa recorrente virada e ascensão burguesa, rememorando sua histórica indiferença e disposição, inclusive psíquica, de tirar proveito das circunstâncias e condições históricas da luta de classes para promover barbáries civilizatórias, imobilizar e submeter a classe trabalhadora, ganhar mais dinheiro e assegurar seus lucros e poder, se impondo como saída para os problemas e dilemas sociais. A referência é ao texto de Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, que corresponde a sua análise de um fato concreto: o golpe de Estado (1851) bem sucedido e orquestrado pela burguesia financeira francesa, o qual reestabeleceu a monarquia mesmo após o evento radical e traumático da revolução francesa, sucedido por um contexto social de terror e medo na França. E através de processo eleitoral, do voto, levando ao triunfo de Luís Bonaparte. Segundo Marx, “um personagem medíocre e grotesco”, um ator social desconhecido até então no cenário da disputa política francesa, mas com forma, apoio e organização bonapartista suficiente para salvaguardar os interesses e expressão da economia política burguesa, do capitalismo e suas ideologias, abstrações, contenções sociais e significados vazios de moralismo, igualdade e cidadania, frente à miséria da população que continuou sem dinheiro, à centralidade do trabalho, às relações sociais de produção e frente à propriedade privada e concentração de riqueza que sustentam a realidade concreta e produzem desigualdades sociais naturalizadas pelas sociedades burguesas (https://www.youtube.com/watch?v=vcnT_ifUM9E ).

Não obstante, para elaborarmos a conjuntura social do sistema capitalista na atualidade pandêmica brasileira, além da necessidade de emancipação política, responsabilidade social no ato de votar e participar do processo eleitoral, legitimidade revolucionária, reconhecimento da origem das contradições da gestão capitalista, interessa-nos aqui também gritar a favor da vida, num “basta de miséria, preconceito e repressão” (https://www.youtube.com/watch?v=ZF8zAFkOL10 ), num basta de servidão ao imperialismo do sistema capitalista e a inépcia do Estado no nosso tempo. Interessa-nos promover a agricultura familiar e os pequenos produtores que, com seus produtos orgânicos, não nos envenenam nem violentam a Mãe terra com agrotóxicos, a exemplo do agronegócio. Proibir a exportação de alimentos sem equilíbrio dos estoques reguladores de itens básicos e o aumento abusivo de preços, deixando os pobres ainda mais abandonados, sem dinheiro e sofrendo a ameaça de desabastecimento de alimentos. Cessar com os crimes e destruições ambientais expressados pelas atuais queimadas e incêndios no pantanal e na Amazônia, que tem ensejado campanhas nas redes sociais de boicote internacional aos produtos brasileiros, entre tantas emergências que precisamos resolver, atender, cuidar, para salvar vidas e o meio ambiente nesse momento. Discutindo “Seis complexidades em tempos de pandemia”, Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, diretor geral do Instituto Tricontinental de pesquisa social, afirma que a pandemia provocou abalos significativos no sistema capitalista mundial e reflete um conjunto de consequências advindas desse choque, apresentando seu olhar sobre essa nova configuração da realidade social e do capitalismo mundial (https://www.brasildefato.com.br/2020/09/07/seis-complexidades-em-tempos-de-pandemia ).

Esta semana, em que vivenciamos 6 meses de crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, o dia 11 de setembro foi marcado pela rememoração dos 19 anos do atentado às Torres Gêmeas em Nova York, quando morreram 3 mil pessoas e mais de 6 mil ficaram feridas. (https://www.tribunadosertao.com.br/2020/09/11-de-setembro-completa-19-anos-relembre-o-atentado-7/ ). Então, talvez seja importante refletir: em que medida esses dois eventos se tocam? Mais ainda: o que aprendemos com o 11 de setembro de 2001 que nos capacita para, além da exigência de elaborar nosso passado recente para que barbáries não se repitam, mirar o futuro reparando o presente vivido pela pandemia de 2020? Ou será que não estamos aprendendo sobre o que de fato importa?

E é nesse percurso de (não) aprendizagens que nos é anunciado o aumento da destruição da Amazônia, conforme os dados divulgados ainda em agosto; e, agora em setembro, é revelada a situação alarmante do cerrado brasileiro onde cresce o número de queimadas causadas, segundo especialistas, pela ação humana. Em uma expressa denúncia de que “não [é] somente a Amazônia [que] está pagando pelos interesses e riqueza dos capitalistas” (https://www.esquerdadiario.com.br/Alem-da-Amazonia-Cerrado-brasileiro-tambem-e-destruido-pelas-queimadas-criminosas ), indicando, por outro lado, a necessidade de intervenção social contra essa ação criminosa que tem como objetivo supremo a obtenção de lucros em detrimento da vida neste planeta. Nesta perspectiva, Bruno Latour, pensador francês, julga que as crises ambiental e política vividas no país criam a tempestade perfeita na qual está visível as questões para as próximas décadas e que se o Brasil resolvê-las poderá trazer resposta para o mundo inteiro (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2020/09/se-o-brasil-achar-solucao-para-si-vai-salvar-o-resto-do-mundo-diz-bruno-latour.shtml ).

Porém, como ainda não pudemos resolver essas questões, é possível verificar acontecimentos como o aumento assombroso do pacote/quilo do arroz devido ao aumento das exportações desse produto e a diminuição da importação, novamente, em prol do lucro já que nessa condição o preço da exportação fica mais atraente (https://www.brasil247.com/brasil/nassif-altas-do-arroz-tem-uma-explicacao-tao-obvia-que-e-inacreditavel-como-a-midia-cobriu-o-episodio ). Assim, é importante estar atento, em particular, na hora de decidir seu voto nas futuras eleições para procurar assegurar que, pelo menos, a cesta básica chegue à mesa da maioria da população brasileira, especialmente, em um momento de redução de renda e de perda de emprego e também de proliferação de desinformação programada.

Keyla Ferreira e Sandra Ataíde

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