Giras(sóis)

Girassóis da última semana de setembro ou da diversidade de vozes

Sentimos que a diversidade e a intensidade de temas que apresentamos nos textos semanais externam não apenas o querer de permanecer próximas e conectadas a vocês, pensando e agindo a favor de mundos outros, subjetividades outras, refletindo e dialogando sobre fatos concretos, notícias acerca dos impactos no novo coronavírus na nossa vida, no nosso tempo. Mas, também expressam um exercício sensível e necessário sobre o sentido crítico, reflexivo e sinaliza-dor acerca do devir-outro. Ou daquilo que já aprendemos, e do que ainda podemos aprender, com as lições da pandemia.

Lições articuladas a dor engajada e a alegria criativa da nossa ancestralidade, assim como, do momento presente, infinitas vezes expressado nos livros, nas vozes narrativas, nas memórias de experiências vividas, nos relatos, desabafos e gritos dos sintomas e dos sinais dos nossos retrocessos “civilizatórios”, sociais, existenciais. O grito do Yanomami Davi Kopenawa como a queda do céu, da nossa Sonia Guajajara (https://www.youtube.com/watch?v=0SM1wwD_9Es ), de Ailton Krenak como a vida não é útil, de Viveiros de Castro como perspectivismo ameríndio. Da nossa Lélia Gonzalez como racismo e sexismo na cultura brasileira. Das mulheres mães em luta contra a violência policial: “Quando meu filho me puxou da cama, ele disse: “Mãe, luta pelos que estão vivos. Eu não volto mais. Aqui não é o seu lugar, não é para a senhora ficar aí”. Foi quando comecei a ir atrás das outras mães”. De Rosa Luxemburgo como acumulação do capital, de Angela Davis como mulheres, raça e classe, de Hannah Arendt como Eichmann em Jerusalém, de Karl Marx como o capital e ideologia alemã, de Sigmund Freud como o mal-estar na cultura, de Georg Simmel como a metrópole e a vida mental, de Max Weber como ética protestante e o espírito de capitalismo. De Frantz Fanon como pele negra em máscaras brancas, de Theodor Adorno como conceito de iluminismo, de Walter Benjamim como origem do drama trágico alemão, de Pierre Clastres como a sociedade contra o Estado: de que riem os índios? De Michel Foucault como história da loucura. Entre vasta diversidade de gritos ecoados contra o tipo de racionalidade, e seus excessos, tipo de cultura, de subjetividade, de relação, de socialização, que manifestamos e erigimos no mundo até aqui (https://www.youtube.com/watch?v=-hTzVlTiweM  https://www.youtube.com/watch?v=GEBB2J5JfYE ).

“A construção da vida encontra-se, atualmente, mais em poder dos fatos do que das convicções”, gritou Benjamin mais uma vez. E, entrelaçadas a ele, vozes infindáveis desvendaram e denunciaram as engrenagens que geraram os fatos que, recorrentemente, incidiram e violentaram o organismo da terra, a carne viva, por excesso de racionalização, destruindo a natureza, desumanizando a cultura, as pessoas e as democracias no século 20. Vozes que, por serem igualmente históricas, também anunciaram os sentimentos e as atitudes intimidadoras da covardia e da arrogância do unilateralismo, que estavam sendo redesenhadas e retroalimentadas pelo liberalismo e neoliberalismo para o século 21. Em particular, para a América Latina, seja através da judicialização da política seja pela construção de muro, a exemplo do que acontece no México. Ou ainda, mediante avalanche de sucessivos golpes: 2009 em Honduras, 2012 no Paraguai, em 2016 aqui no Brasil, em 2019 na Bolívia, ou as truculências e ameaças enfrentadas hoje pela Venezuela, Equador, Argentina e Chile, entre tantos outros países ( https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2020/09/decano-celso-de-mello-decide-antecipar-aposentadoria-para-outubro/  https://www.cartacapital.com.br/mundo/senado-dos-eua-quer-ratificar-juiza-conservadora-na-suprema-corte-ate-30-de-outubro/ ).

Quais lições estamos reaprendendo com a pandemia? Que perspectiva de alteridade nos define agora? Ou melhor, identificamos e conhecemos a historicidade que nos afeta, nos atravessa e nos constitui no momento presente?

Após seis meses de pandemia da covid-19, o mundo presencia, mais uma vez, o aumento de casos de infecção e morte provocados pelo novo coronavírus na Europa, a exemplo do que acontece na Espanha e França, onde se observa o movimento ascendente da curva de registro de casos. Assim, para conter a circulação do vírus e a contaminação da população, esses países têm recorrido, novamente, a medidas restritivas e, às vezes, drásticas (https://liberal.com.br/brasil-e-mundo/mundo/franca-e-espanha-enfrentam-aumento-de-casos-de-covid-19-e-europa-ve-novo-recorde-1318988/ ).

No Brasil, foi registrado no sábado 26 de setembro, 869 óbitos em decorrência da codid-19, elevando o total de mortes pela doença a 141.406, de acordo com os dados do Ministério da Saúde. Em São Paulo, Estado mais afetado pela doença no país, as autoridades afirmam que não há preocupação com uma possível segunda onda da covid-19 (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/brasil-registra-869-novas-mortes-por-covid-19-em-24h,825ad35c79f2caeb8636789552ca70966ixzm7t4.html ) Em contrapartida, estudo realizado pela Fiocruz aponta que Manaus, a primeira capital a sofrer colapso no sistema de saúde devido à pandemia, já vive a segunda onda de casos provocada pela doença e recomenda lockdown para reduzir a circulação do coronavírus (https://www.brasil247.com/brasil/pesquisa-da-fiocruz-aponta-segunda-onda-de-covid-19-em-manaus?amp=&utm_source=onesignal&utm_medium=notification&utm_campaign=push-notification ).

Apesar desse cenário, Estados brasileiros, como é o caso de Pernambuco, já anunciaram plano de retorno às aulas presenciais para o início de outubro, sendo os pais/cuidadores do estudante os únicos responsáveis por essa difícil decisão. Mas, será esta decisão dos Estados é oportuna? É possível prever as consequências desse retorno às aulas presenciais neste momento para os estudantes, famílias e profissionais da educação? Sem pensar nas consequências mais graves, de acordo com estudos na área da saúde mental, os transtornos mentais podem ser causa e/ou efeito da covid-19. Por exemplo, estudo da Universidade Estadual do Rio (UERJ) verificou que profissionais que precisam sair para trabalhar e estão mais expostos ao risco da contaminação pelo novo coronavírus têm pior saúde mental que outros profissionais (https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/09/21/interna_nacional,1187397/buscas-google-sobre-ansiedade-outros-transtornos-mentais-batem-recorde.shtml ).

Por outro lado, estudo desenvolvido na Universidade de Oxford, na Inglaterra, verificou que um em cada 16 pacientes da covid-19 um desenvolve algum tipo de transtorno mental até três meses após a doença (https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/08/19/interna_nacional,1177505/um-em-cada-16-pacientes-que-tiveram-covid-19-apresenta-transtornos-men.shtml ). Então, estariam os profissionais da educação correndo os dois tipos de risco com o retorno às aulas presencias: a contaminação pelo vírus e o desenvolvimento de transtornos mentais? E as crianças, adolescentes e jovens estariam mais suscetíveis ao abalo da saúde mental devido ao isolamento social e, ao mesmo tempo, expostos e expondo suas famílias em risco da contaminação ao retornar às aulas presenciais? Estaríamos diante de um impasse?

De qualquer forma, especialistas anunciam que, em breve, a segunda onda será da saúde mental e, como aconteceu com a pandemia da covid-19, o sistema de saúde, no Brasil, não estará preparado para atender a demanda. Como se tem mencionado, o crescimento de casos de transtorno mental tem origem no isolamento social e no medo de desenvolver a doença, mas também, notadamente, nas mudanças provocadas no contexto social, econômico e político em decorrência da crise sanitária. E os mais afetados são as crianças e os adolescentes que tiveram as suas rotinas completamente alteradas e não têm ferramentas emocionais para lidar com essa situação. Deste modo, como ressalta uma das especialistas de saúde mental, “É preciso um ajuste comportamental, ensinar a lidar com a perda, para desfrutarem, com sucesso, das próximas etapas da vida” (https://www.metropoles.com/saude/segunda-onda-da-pandemia-sera-de-saude-mental-dizem-especialistas ). Portanto, seria esta a dimensão terapêutica da educação? E seria também no âmbito da educação que se poderia desenvolver a ética do cuidado para se (re)afirmar que todas as vidas importam?

Sandra Ataíde e Keyla Ferreira

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