Giras(sóis)

Girassóis da última semana de maio ou para falar das perdas individuais e coletivas

Apesar de não termos uma média nem uma análise estatística precisa acerca dos óbitos por covid-19 no Brasil, em particular, devido às subnotificações e à credibilidade, ou não, de recentes estimativas (https://br.reuters.com/article/domesticNews/idBRKBN2322MO-OBRDN?sp=true ), o fato é que, além da tragédia humanitária de transformarem vidas e mortes humanas em números, nosso país está vivenciando o agravamento diário da crise política e do caos social que, nem de longe, sinalizam ter fim. Tampouco demonstram interesse por uma política nacional de controle e enfrentamento do novo coronavírus, (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52744233 ), um inimigo invisível que tem aprofundado e evidenciado desigualdades socioeconômicas. Como denuncia a nota técnica do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), publicada em 28 de maio, o risco de morte por essa doença pandemia é mais frequente entre negros e analfabetos quando comparados a brancos com nível superior (80% contra 19%), seja qual for o recorte empregado para a comparação dos dados levantados (https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/taxa-de-morte-por-covid-e-maior-entre-negros-e-analfabetos,28122f2a1c5d22a2ac9336755e53ef177jj54a7i.html ).

Nesse contexto de crise, é notória a sintonia política, e não apenas retórica, narrativa ou de valores, desse deletério quadro sanitário e social com a vergonhosa e estratégica submissão do Brasil ao governo dos EUA (https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2020/05/24/interna_mundo,857918/trump-proibe-entrada-de-estrangeiros-nos-eua-a-partir-do-brasil.shtml ), a suas constantes recusas ao desenvolvimento multilateral da China e a sua participação na farsa do neoliberalismo contemporâneo (https://www.youtube.com/watch?v=J6mAa09lggs ). Mas, principalmente, ao alinhamento do Brasil ao movimento geopolítico, nazifascista, letal, do capitalismo estadunidense que corrói, executa, extermina, a população negra (https://brasil.elpais.com/internacional/2020-05-30/revolta-pela-morte-de-george-floyd-se-apodera-de-minneapolis-coringa-anda-solto-pelas-ruas.html ) (https://istoe.com.br/reporter-da-cnn-e-preso-durante-cobertura-ao-vivo-de-protesto/ ), pobre, indígena, trabalhadora, encarcerada, refugiada, chancelando perdas de vidas, programas sociais e ambientais, emprego e renda, soberania territorial e econômica ao redor do mundo, sobretudo, aqui no Brasil. Violências de Estado que têm implicado na emergência de efervescentes e incontroláveis protestos, movimentos e manifestações antirracistas de rua, e virtual, advindas da população periférica americana, revoltadas com os recorrentes massacres policiais, declaradamente, racistas. E com a política do governo Trump, supremacista branca e, essencialmente, desprovida de proteção social (https://www.nytimes.com/section/todayspaper?nytapp=true ).

Essa situação promove expressiva reação da imprensa e mídia internacional, que tem publicado matérias responsabilizando o governo brasileiro pela rapidez do espalhamento, danos, descaso, contágio, perda, do controle da covid-19 e, como resultado, fica em aberto a questão de uma possível bancarrota do sistema de saúde e econômico. Muito embora, o isolamento social no Brasil tenha sido adotado, relativamente, cedo. “Outros países que enfrentam condições sociais ainda mais difíceis, como a África do Sul, tiveram uma resposta muito mais disciplinada e eficaz” (https://www.infomoney.com.br/politica/populismo-de-jair-bolsonaro-esta-levando-o-brasil-ao-desastre-diz-financial-times/ ).

Com efeito, a naturalização das desigualdades, mortes de população negra e periférica, desemprego, crescimento do trabalho informal e pobreza extrema, ilustram o modelo de sociedade genocida que temos erigido até aqui, incluindo, certamente, a disseminação descontrolada da covid-19 no nosso país. Entretanto, precisamos deixar registrado que a causa e responsabilidade, num sentido, pela ausência de mitigação de impactos, noutro sentido, pela queda de 1,5% do PIB brasileiro atual, correspondem a um período anterior à pandemia e que, dia após dia, teimam em debilitar a força social e constitutiva dos investimentos públicos no Brasil (https://www.brasildefato.com.br/2020/05/29/com-queda-de-1-5-do-pib-no-primeiro-trimestre-brasil-esta-proximo-de-nova-recessao ).

Contudo, três notícias parecem buscar fazer valer o poder da nossa Constituição Federal e instituições brasileiras no combate à covid-19, as pressões desses perfis, originariamente, antidemocráticos, militarizados, necropolíticos (https://www.youtube.com/watch?v=Iz-XDCpT_2Y ) e aos ataques e propagações de conteúdos midiáticos burgueses, falsos, mentirosos que, mais uma vez no nosso país, têm apoio robusto da elite brasileira e dos propaladores e defensores da militarização. Uma delas demandou da OMS com a suspensão do uso de cloroquina nos testes da covid-19 (https://pebmed.com.br/oms-suspende-o-uso-da-cloroquina-e-hidroxicloroquina-em-testes-contra-a-covid-19/ ). Outra partiu da aprovação no senado do projeto de lei que determina a liberação de leitos vazios de hospitais privados para atendimento do SUS, destinado à saúde das classes populares (https://congressoemfoco.uol.com.br/legislativo/senado-aprova-projeto-que-obriga-hospitais-a-ceder-leitos-desocupados-ao-sus /).

Finalmente, a notícia sobre manifestações sociais antifascistas em São Paulo (https://catracalivre.com.br/cidadania/gavioes-e-outras-torcidas-fazem-protesto-antifascismo-na-paulista/ ) e sobre operação liderada por ministro do STF, que vislumbra defesa da Democracia e da população brasileira para investigar, via Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) em curso no nosso país, tecnologias importadas, financiadas, digitais e deliberadas por envolvidos com os armamentos das fake news, através do nomeado gabinete do ódio (https://www.camara.leg.br/noticias/664894-para-relatora-da-cpmi-das-fake-news-operacao-da-pf-comprova-investigacao-feita-pelo-colegiado/ ). Operação seguida pela publicação da notícia da cassação de chapa e cancelamento das eleições 2018 ( https://www.metropoles.com/brasil/rolou-na-6a-tse-questiona-chapa-bolsonaro-mourao-weintraub-se-cala-na-pf ). Quem sabe assim, não teremos medidas realmente eficazes, mesmo que tardias, no combate ao novo coronavírus no Brasil.

Em contexto mais local, também visualizamos ações que afloram a nossa esperança de que tudo isso implique, verdadeiramente, no enfrentamento e controle mais ostensivo da pandemia no nosso país. Isso é o que podemos verificar na ação conjunta da Universidade Federal de Pernambuco e da Prefeitura do Recife, com a participação do Ministério Público do Trabalho, com objetivo de promover a ampliação dos testes da covid-19 para “permitir um melhor acompanhamento e devido isolamento dos pacientes mais graves”, na cidade do Recife e no Estado de Pernambuco (https://www.ufpe.br/agencia/noticias/-/asset_publisher/VQX2pzmP0mP4/content/ufpe-e-prefeitura-do-recife-iniciam-parceria-para-realizacao-de-testes-do-novo-coronavirus/40615 ).

Todas essas ações que insurgem na defesa da vida, dignidade humana, valores e direitos humanos e sociais assegurados pela nossa Constituição Cidadã (http://www.dhnet.org.br/direitos/anthistbr/redemocratizacao1988/dh_constituicao_88.htm ), ajudam-nos a enfrentar também o sentimento de perdas, de várias ordens, que vivenciamos nesse momento, uma vez que amparam o nosso luto, nos aproximam das dores coletivas e nos permitem falar sobre elas e elaborá-las para valorizar a vida por dentro de uma sociedade, essencialmente, democrática (https://www.campograndenoticias.com.br/2020/05/26/luto-e-perdas-na-pandemia-o-que-estamos-vivendo/ ).

Entretanto, o luto, no que concerne à morte do corpo físico, é um processo humano natural e tende a promover desequilíbrio na vida mental e cotidiana, requerendo cuidados em diferentes dimensões para que seja reelaborado, em especial, (http://www.ip.usp.br/site/noticia/luto-medo-e-ansiedade-o-sofrimento-psicologico-na-pandemia/ ) pela rememoração da perda de uma pessoa (https://inumeraveis.com.br/ ), liberdade, lugar, saúde, trabalho e condições anteriores de vida, caracterizadas pela possibilidade de falar sobre a perda, bem como pelo acolhimento de outras pessoas e de instituições sociais para que, como ressalta Lya Luft, tenhamos um lugar em que nos sintamos confortáveis, mas não adormecidos, alienados.

Um lugar onde nós possamos acreditar: “não faz muita diferença em quê, desde que não seja unicamente no mal, na violência, na traição, na corrupção, no negativo. Para que o argumento da nossa história seja o de uma viagem de reis: não um bando de ratos assustados correndo atrás de seus próprios reflexos num labirinto espelhado.” https://www.revistaprosaversoearte.com/luto-e-renascimento-lya-luft/ ).

Keyla Ferreira e Sandra Ataíde

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