Giras(sóis)

Emergência climática: podemos aprender a compor com o organismo vivo da Terra?

Neste último mês de julho de 2022, foram muitas as notícias que alertaram sobre o estado mundial de emergência climática no nosso planeta, provocando a necessidade de medidas governamentais mais ostensivas para frear o aquecimento global, desmatamento da floresta, entre outros efeitos e catástrofes ambientais. Um dos acontecimentos mais destacado foi o aumento das temperaturas no hemisfério norte, em especial, na Europa. Neste continente, o termômetro marcou 40,3 graus no Reino Unido, houve registro de 1.700 mortes em Portugal e Espanha que foram provocadas pelos incêndios florestais, e a falta de alimentos na Itália e França devido à seca que atinge esses países e metade do continente. Então, se impõe a pergunta: o que é necessário e urgente fazermos para evitarmos mais catástrofes ambientais? “Para reverter a subida dos termômetros, cujas nefastas consequências agora batem à porta das pessoas, a recomendação do IPCC, o painel global das mudanças climáticas da ONU, é reduzir emissões dos gases do efeito estufa ao ritmo de 7% por ano. Isso exige, porém, uma reviravolta no modo de viver e produzir que ainda soa distante e o resultado é que, no lugar de retroceder as emissões avançam 2% anualmente […] (Leia mais em: https://veja.abril.com.br/agenda-verde/o-que-explica-a-nova-onda-de-calor-e-o-que-deve-ser-feito-contra-a-crise/https://www.youtube.com/watch?v=5byN3rhbZKs). Diante da gravidade e da magnitude dos eventos e das mudanças climáticas, acreditamos ser imprescindível criar proximidades e oportunidade de estudos com pensador@s, com pesquisas e com lutas históricas que nos apoiem na criação de sensibilidades e de enfrentamentos, assim como, no reconhecimento da sabedoria indígena (https://www.youtube.com/watch?v=5byN3rhbZKs&t=2s).

De acordo com Viveiros de Castro, a “distinção clássica entre Natureza e Cultura não pode ser utilizada para descrever dimensões ou domínios internos das cosmologias não ocidentais sem antes passar por uma crítica etnológica rigorosa” (1996, p. 117), chamando a nossa atenção para a necessidade de problematizar, de um lado, a distinção ocidental entre natureza e cultura, e seu caráter autoritário e pretensamente hegemônico. De outro lado, de considerar pesquisas antropológicas e etnologias, clássicas e contemporâneas, que enunciam não apenas a necessidade de coexistência paradigmática entre a ciência ocidental e as cosmologias dos povos originários. Mas, enfatizam o perspectivismo amazônico, o modo singular das cosmologias não ocidentais habitarem o planeta e se relacionarem com humanos e não humanos, promovendo equilíbrio e preservação do organismo vivo da Terra, da Mãe Terra, dos “Mil nomes de Gaia”: “a condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade” (p. 119). Essa inquietação move nossa imaginação e sensibilidade para compartilhar a teoria dos povos amazônicos, pois além de outras noções e conceitos, no horizonte do pensamento ameríndio a centralidade epistemológica da espécie humana não é considerada. Todavia, e entre outras perspectivas, os modos predadores e destrutivos dos humanos se relacionarem entre si e com os não humanos, principalmente, com o nosso planeta. Por isso, as mudanças climáticas e a recorrência de pandemias, epidemias e surtos se manifestam como dispositivos do Antropoceno, como intrusão de Gaia, refletindo e evidenciando, por um lado, o fracasso dos modelos de desenvolvimento em curso no nosso tempo. Por outro lado, o “sentimento de irrupção definitiva de uma forma de transcendência que pensávamos haver transcendido” (2012, p. 151), comprovando formas precárias através das quais legitimamos, perpetuamos, naturalizamos a arrogância das narrativas e das práticas que trouxeram o nosso planeta a essa situação limítrofe, ou seja, ao “ponto de não retorno”. E essa evidência é um consenso científico, pois são as ações antropogênicas, as ações humanas que causam este estado de emergência planetária, destruindo, em série, os humanos e os não humanos (https://www.youtube.com/watch?v=bGEF3SXk5yw).

Neste sentido, Viveiros de Castro desenvolveu também a noção de reontologização, nos motivando a se ocupar com a perspectiva da virada ontológica que vem acontecendo em várias disciplinas, a exemplo da filosofia e da antropologia contemporânea. Reontologizar corresponde à metafísica indígena de recolocar o planeta, ou seja, o organismo vivo da Terra no centro das nossas ocupações e preocupações humanas. Trata-se, principalmente, de reconhecer e priorizar a materialidade da existência dos não humanos, “pela agência das coisas, a consciência e a personalidade (jurídica inclusive) dos animais, tudo isso na tentativa meio desesperada de reanimalizar metafisicamente o homem depois de séculos de dominância de uma teologia política fundada em sua espectralização” (2012, p. 167). Reontologizar a partir da teoria ameríndia significa, antes de tudo, identificar e combater a produção e o aprofundamento do Antropoceno, com seu exercício ininterrupto de exploração e destruição do meio ambiente, seja através do aquecimento global ou por outras ações humanas (https://www.youtube.com/watch?v=1gnUH7HNBAU).

Por isso, e segundo Isabelle Stengers, em seu livro “No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que aproxima” (2015), precisamos interrogar o que realmente compreendemos e concebemos sobre desenvolvimento, que, historicamente se move em direção à exploração e destruição de humanos e não humanos, atestando que não houve descontinuidade histórica nem do ímpeto nem das práticas do Antropoceno. Se sabemos que a emissão de dióxido de carbono, o desmatamento, o aquecimento global, a acidificação dos oceanos e corais e as demais barbáries e impactos ambientais, “já forçam os climatologistas a modificar seus modelos e suas previsões”; se sabemos que o derretimento das geleiras está acontecendo muito mais rápido”; se sabemos que na nossa comida tem veneno, entre tantas outros desiquilíbrios e danos, é sinal de que esses saberes científicos já se popularizaram. Contudo, esse saber popularizado, essa “verdade inconveniente” para algumas pessoas continua se perpetuando, continua cada vez mais se repetindo e tem, verdadeiramente, configurado e se manifestado no nosso tempo como “uma globalização, e isso, antes de tudo, do ponto de vista das ameaças que se aproximam” e das catástrofes que já estão acontecendo no momento presente (2015, p. 11). Um modelo de desenvolvimento que atormenta humanos e não humanos segundo a segundo. Um tipo de desenvolvimento que tem deixado os viventes, sejam eles industriais, economistas, cientistas, empresários, pesquisadores, mercado financeiro, comércio, entre outros responsáveis, em “estado de pânico” (2015, p. 45). Uma espécie de desenvolvimento ilimitado, acelerado e destrutivo que tem ofendido o planeta vivo, agredido Gaia, a qual funciona por “agenciamento de relações”, e não pela lógica de exclusões e distinções, e à deriva da lógica cultural do capitalismo. “Gaia é o nome de uma forma inédita, ou então esquecida, de transcendência”, pois, mesmo se desejarmos, não poderemos ignorar sua forma, uma vez que ela é da ordem da intrusão, da catástrofe, do processo material “e que veio para ficar”, pois ao mesmo tempo em que sabemos “não existir um futuro previsível,” vemos a perpetuação de um “regime de funcionamento econômico” que está destruindo os viventes, em particular, nosso planeta terra (2015, p. 47).

Com isso, não queremos dizer que o organismo vivo da Terra, que Gaia não tenha exigido respostas de nós. Ou ainda, que Gaia seja justiceira ou vingativa, a exemplo do estatuto das qualidades, defeitos e características humanas. Muito pelo contrário. O que seria essa sequência de catástrofes, de desastres climáticos em contexto planetário, senão “aquilo para o que temos que criar uma resposta”. Ou seja, a intrusão de Gaia está nos forçando a pensar, a sentir, a “repovoar o deserto devastado da nossa imaginação” (2015, p. 127). Entretanto, e segundo Stengers, estamos em estado de pânico devido exatamente ao fato dos responsáveis “confiarem” no capitalismo, e, por isso, não conseguem formular respostas oportunas, precisas, imediatas, necessárias para a intrusão de Gaia, até mesmo porque “a brutalidade de Gaia corresponde à brutalidade daquilo que a provocou”, um tipo de desenvolvimento excessivamente “cego às suas consequências, ou, mais precisamente, que só leva em conta suas consequências do ponto de vista das novas fontes de lucro que elas podem acarretar”. Para Stengers, os responsáveis sabem muito bem que o funcionamento do capitalismo identifica “intrusão de Gaia com o aparecimento de um novo campo de oportunidades” para ganhar mais dinheiro e obter cada vez mais lucro (2015, p. 47) (https://www.politize.com.br/estado-de-emergencia-climatica).

No que se refere ao Brasil, um estudo publicado na revista Nature Sustainability, que tem como principal autora a engenheira florestal Juliana Siqueira-Gay, modelou o que aconteceria se dez áreas nos Estados do Amapá e do Pará fossem abertas ao garimpo. Os resultados do estudo demonstraram que “Isso permitiria o desenvolvimento de cerca de 242 jazidas minerais adicionais de ouro, cobre e outros minerais […] Mas esse desenvolvimento também levaria ao desmatamento de cerca de 7.626 quilômetros quadrados —uma área equivalente a cinco vezes o município de São Paulo— nos próximos 30 anos” (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/07/desmatamento-aumentara-se-brasil-legalizar-mais-mineracao-na-amazonia-diz-estudo.shtml). Então, o que é necessário fazermos para combater uma política de defesa da liberação da mineração na Amazônia, em especial, nas áreas de proteção indígena? O que fazer coletivamente para que o desmatamento seja evitado e o planeta terra seja protegido?

As ações individuais e coletivas precisam ser urgentemente revistas, já que o dia da sobrecarga, 28.07.22, data em que “a humanidade consumiu tudo o que os ecossistemas podem produzir ou renovar em um ano’, (https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2022/07/28/dia-da-sobrecarga-humanidade-vive-a-credito-de-recursos-naturais-a-partir-de-hoje.htm?cmpid=copiaecola), apontou que em relação aos recursos naturais, o mundo já está vivendo a crédito até o final deste ano. Por isso, precisamos reconhecer que estamos vivendo um estado de emergência climática a qual tem como causa principal o comportamento humano e as emissões de carbono geradas pela humanidade. Nesta direção, vários países declararam estado de emergência climática, a exemplo da Alemanha, Austrália, Bélgica, Canadá, Espanha, EUA, França, Grã Bretanha, Itália, Argentina e Nova Zelândia. “No Brasil, a cidade de Recife foi a primeira a declarar estado de emergência climática em 2019. Na mesma ocasião foi apresentado o Plano de Adaptação Climática do Recife, que prevê medidas importantes a serem tomadas para conter as mudanças climáticas.” (https://www.infoescola.com/ecologia/estado-de-emergencia-climatica/#:~:text=A%20crise%20climática%20ou%20emergência%20climática%20tem%20como,mudanças%20climáticas%20vão%20alem%20do%20aumento%20na%20temperatura).

Na corrente do enfrentamento da emergência climática, o estado de Pernambuco lançou na última semana do mês de julho, o edital de apoio a projetos de prevenção e mitigação de incidentes climáticos provocados pelas chuvas (https://www.brasildefato.com.br/2022/07/08/estudo-aponta-conexao-entre-mudancas-climaticas-e-os-temporais-que-afetam-o-nordeste). Assim, reafirmando a importância da ciência, a necessidade de uma ação conjunta, bem como reconhecendo que é urgente a mudança de comportamento das pessoas na relação com a mãe terra, o Governador Paulo Câmara ressaltou: “Estamos chamando a academia e a sociedade civil para estudarmos juntos, com o intuito de estarmos cada vez mais preparados para os desafios do futuro. Os fenômenos climáticos provêm, muitas vezes, da ação humana, por isso precisamos estimular práticas que atenuem os desastres naturais e suas consequências, a exemplo dos que ocorreram no nosso Estado e no país”. Em consonância com este pensamento, o reitor da Universidade Federal de Pernambuco, o professor Alfredo Gomes, presente na solenidade ocorrida no Palácio do Campo das Princesas, salientou: “É um chamamento à academia e aos pesquisadores para fazer proposições de forma articulada para a formulação de iniciativas e políticas públicas para mitigar as consequências desses fenômenos naturais que afetam as condições de vida da população.” (https://www.ufpe.br/agencia/noticias/-/asset_publisher/dlhi8nsrz4hK/content/pernambuco-lanca-edital-de-fomento-a-projetos-de-prevencao-e-mitigacao-de-incidentes-climaticos/40615)

Keyla Ferreira e Sandra Ataíde

Um comentário em “Giras(sóis)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: