Giras(sóis)

Girassóis da primeira semana do mês de maio

“Coronavírus: como o mundo desperdiçou a chance de produzir vacina para conter a pandemia”. Iniciamos os Girassóis de maio com o título de um artigo para lhe motivar a fazer uma leitura mais cuidadosa, apurada, acerca dos motivos que provocaram o recuo das pesquisas e produção da vacina contra o coronavírus que, em 2002, provocou a epidemia da SARS (síndrome respiratória aguda grave), originada na província chinesa de Guangzhou e estendida, na época, para mais de 22 países (www.uol.com.br/vivabem/noticias/bbc/2020/04/10/coronavirus-como-o-mundo-desperdicou-a-chance-de-produzir-vacina-para-conter-a-pandemia.htm). Mas que agora ressurge, dessa vez como pandemia, atravessando inúmeros países ocidentais e levando a óbito milhões de pessoas no mundo por um novo coronavírus, a covid-19 (Sars-Cov-2).

Será, realmente, legítimo e necessário insistir na reflexão crítica e ética sobre as causas do abandono das pesquisas e produção da vacina contra o SARS para entender a crise sanitária hoje? E o que dizer também da desaplicação desses estudos na ocasião da epidemia do Mers-Cov, em 2012, no Oriente Médio quando, segundo hipóteses, outro coronavírus letal teria sido transmitido dos camelos para os seres humanos?

Após as mortes e desastres humanitários fomentados pela SARS e pela Mers-Cov, assim como, pela atual pandemia do novo coronávirus, haveríamos ainda de duvidar do desinteresse de governos e do mercado farmacêutico mundial de priorizar vidas humanas em detrimento do lucro financeiro? Quantas “lições letais” ou, como diz Boaventura no ensaio “A cruel pedagogia do vírus”, precisaremos ainda protagonizar ou assistir para erradicar a ação criminosa e política que afirma faltar dinheiro e que se sobrepõe aos financiamentos de estudos, pesquisas e conhecimentos científicos disponíveis e, por essa razão, deveriam favorecer, proteger, promover as vidas humanas existentes, inclusive, aquelas que habitam em territórios, historicamente, marcados pela linha abissal e centrífuga imposta pelas sociedades americana e europeia? Será que agora, pelo fato da covid-19 ter atingido brutalmente essas sociedades teremos, enfim, financiamento garantido para a produção da vacina contra esse novo coronavírus? (www.boitempoeditorial.com.br/produto/e-book-a-cruel-pedagogia-do-virus-958).

Na corrente dessas reflexões, a Radio France International (RFI), de 8 a 12 de maio de 2020, tem se mobilizado para buscar compreender a respeito do que a pandemia do novo coronavírus mudará no planeta em termos de intercâmbios, de trocas sociais, de sistemas sanitários e do próprio modo de pensar o mundo e o outro, lançando a seguinte provocação: “Após a covid-19, um novo mundo? (www.rfi.fr/fr/général/20200508-après-le-covid-19-nouveau-monde). No âmbito dessa discussão, duas questões mostram-se preponderantes para a reflexão crítica e ética que se pretende nesse Girassóis semanal: após a pandemia, a saúde se tornará prioridade e acessível para todos? (www.rfi.fr/fr/podcasts/20200508-après-la-crise-la-santé-nouvelle-priorité-absolue). O que a crise nos diz sobre a desigualdade e vulnerabilidade social? (www.rfi.fr/fr/france/20200508-l-urgence-est-sociale-et-environnementale-cécile-duflot).

Em ambas as discussões, revela-se a preocupação, entre outras coisas, com o investimento no setor público de saúde, com o acesso de futuros tratamentos médicos a toda a população, bem como com valorização dos profissionais de saúde e com o desenvolvimento de pesquisa nessa área de conhecimento. Para isso, como reflete Cécile Duflot, Diretora Geral d’Oxfam France, em tribuna publicada pela RFI em 08 de maio de 2020 (www.rfi.fr/fr/france/20200508-l-urgence-est-sociale-et-environnementale-cécile-duflot), faz-se necessária uma transformação profunda das políticas públicas e das estratégias dos atores que atuam no setor privado para que, por exemplo, metade da população mundial, hoje sem acesso à saúde básica, tenha garantido esse direito humano.

Em consonância com as discussões críticas e éticas levantadas até aqui, o artigo de Danielle H. Rached nomeado “Não se pode patentear o sol” (www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/nao-se-pode-patentear-o-sol.shtml), lembra-nos a posição humanitária e a resposta ética do virologista Jonas Salk, em 1955, ao ser perguntado sobre a patente da vacina contra a poliomielite descoberta por ele, endossando, com isso, a intenção mundial da vacina contra a covid-19 ser, indubitavelmente, um bem público. A ABRASCO, em publicação de 05 de maio de 2020 (www.abrasco.org.br/site/noticias/posicionamentos-oficiais-abrasco/vacinas-e-medicamentos-contra-a-covid-19-garantir-o-acesso-a-todos/47727/), ao evidenciar o esforço coletivo e mundial para a produção de medicamentos e de vacinas de combate ao novo coronavírus, também alerta que é imperativo garantir que esses possíveis produtos médicos possam chegar aos que “necessitam de modo universal e equânime”. Para isso, apostam na força das ferramentas legais contra o poder da indústria farmacêutica e como proteção àqueles em situação de vulnerabilidade social. Como é o caso do Estado do Amazonas que, por sucateamento e colapso do seu sistema de saúde, registrou 149% de mortes em casa, provocadas pelo novo coronavírus (www.bbc.com/portuguese/brasil-52568676). E continuemos a provocar: após a covid-19, surge um novo mundo? Que novo mundo será esse?

                                                                                  Por Sandra Ataíde e Keyla Ferreira

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