Giras(sóis)

Girassóis da segunda semana de agosto ou da relevância dos centros de pesquisa/universidades públicas para o avanço da ciência no Brasil


A segunda semana de agosto foi marcada pelo acontecimento mais esperado durante a pandemia: o registro da 1º vacina contra a covid-19. A Sputnik V produzida pela Rússia, mais precisamente, pelo reconhecido Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, fundado em 1891. No entanto, a comemoração foi suplantada pela polêmica sobre a eficácia desta vacina instaurada por determinados grupos de pesquisa científica e ressaltada pelo jornalismo corporativo. Mas, por que tanta polêmica em torno de uma descoberta científica que poderia salvar vidas? De acordo com o Ministro da Saúde daquele país as críticas advindas do exterior não têm fundamento e são causadas pelo temor a um concorrência justa (https://br.sputniknews.com/russia/2020081215942143-criticas-a-vacina-russa-sao-injustas-e-causadas-pela-competicao-afirma-ministerio-da-saude/ ), mas ainda, as críticas da descoberta e disponibilização da vacina para o mundo poderiam decorrer dos deslocamentos de forças, provocando atualização no modelo geopolítico tradicional e trazendo a Rússia para o centro desse mapa no cenário pós-pandemia, passando a ter maior potência e influência na disputa geopolítica mundial (https://www.brasil247.com/blog/a-vacina-russa-e-a-competicao-geopolitica ). Além disso, no que concerne ao meio científico, questiona-se a falta de publicação de resultados dos dados sobre as fases já realizadas para o desenvolvimento da vacina, bem como a falta de análise por pares e, portanto, a não consideração do método e de protocolos científicos para a aprovação de fármacos (https://www.bbc.com/portuguese/geral-53708260 ) . Então, afirmam que o anúncio da Rússia de descoberta da vacina é muito mais de cunho político do que sanitário ou epidemiológico.

Por outro lado, aqui no Brasil, foram apresentados resultados promissores de estudo com cavalos realizado por pesquisadores do Instituto Vital Brazil, em parceria com a UFRJ e Fiocruz, para o tratamento de pacientes infectados com o novo coronavírus. Foi evidenciado que o plasma sanguíneo desses animais “produz anticorpos de 20 a 50 vezes mais potentes dos produzidos em seres humanos” (https://www.brasildefato.com.br/2020/08/13/pesquisadores-descobrem-soro-produzido-por-cavalos-eficaz-contra-a-covid-19 ). O produto do estudo foi um soro produzido por cavalos e, agora, os pesquisadores esperam a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes clínicos com seres humanos, como estabelecem os protocolos científicos da área. É a ciência produzida nos centros de pesquisas das universidades públicas, mais uma vez, dando respostas efetivas para o enfrentamento da covid-19 em uma perspectiva de compromisso com a vida, embora sigam trabalhando sem apoio do governo e com escassos recursos dirigidos à ciência, bem como à educação, duas áreas prioritárias para o desenvolvimento do país e para a construção de projetos de vida e inserção social dos jovens brasileiros (https://mst.org.br/2020/08/12/no-dia-do-estudante-juventude-sem-terra-debate-educacao-em-tempos-de-pandemia/ ).

Sendo assim, que referências e atitudes responsáveis e de cuidado com a vida da maioria da população, meio ambiente, educação e com a área social os (des)governantes neoliberais estão realmente deixando como legado para os jovens brasileiros, para o Brasil, sobretudo, durante a pandemia? A prática político-econômica do neoliberalismo (mensalão, empresariado, lava jato, setor financeiro) é a verdadeira pandemia. Seu projeto de poder político, que não é nenhuma “mão invisível”, já está entre nós há muito tempo (https://brasil.elpais.com/babelia/2020-03-25/o-texto-inedito-de-galeano-que-antecipa-sua-visao-da-america-latina.html  http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/BibliotecaDigital/BibDigitalLivros/TodosOsLivros/As-Veias-Abertas-da-America-Latina.pdf ). Foi acirrado por FHC, obliterado arduamente pelos governos populares, mas violentamente retomado, atuante e sem prazo de encerramento. Valendo-se agora de uma infinidade de aberrações estratégicas e emaranhados narrativos, que vão desde a indiferença e normalização das mortes de brasileiras e brasileiros, “teologia” da prosperidade, discurso de ódio e moralismo, não gestão das crises, retorno das aulas presenciais, acusações de pedofilia, reabertura das atividades econômicas até “campanha” de reeleição em meio à catástrofe da pandemia (https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/08/14/pesquisa-mostra-que-bolsonaro-achou-o-mapa-da-mina.htm ), entre outras fraturas e mutações dos laços sociais, o neoliberalismo segue comprimindo e capturando vidas e subjetividades no seu mais recente e promissor laboratório de neoliberalização que é a maioria da população: nossos idosos, crianças, mulheres, povos indígenas, trabalhadoras e trabalhadores, juventude, movimentos sociais, pobres, negros, LGBTQI+ e, em especial, a agroecologia brasileira (https://www.brasildefato.com.br/2020/08/14/apos-60-horas-de-resistencia-acampamento-do-mst-em-mg-e-despejado-com-violencia  https://www.youtube.com/watch?v=M42CVmAiuW0  https://revistaforum.com.br/politica/juiz-walter-esbaille-que-mandou-despejar-quilombo-do-mst-ja-foi-chamado-de-advogado-da-morte/ ).

E o desenrolar do laboratório neoliberal acaba também de lançar no ministério da educação mais uma de suas investidas, prejudicando e ameaçando inviabilizar o presente e o futuro dos jovens, a pesquisa científica e o princípio de solidariedade, historicamente erigidos e defendidos pelas universidades públicas brasileiras. Trata-se do projeto de lei orçamentária para 2021, que pretende cortar das universidades federais 1 bilhão de reais em nome da “otimização” da administração pública (http://www.crub.org.br/blog/mec-pode-ter-r-42-bi-a-menos-em-2021-federais-perderiam-r-1-bi/), tentando destruir a importância e especificidade das universidades, da formação acadêmica e da assistência estudantil, da produção do conhecimento científico, da agenda e organização social popular, da educação inclusiva, da comunicação e informação verdadeira, do combate às desigualdades e injustiças sociais sejam elas regionais, de riscos e danos, gênero e sexualidade, aprendizagem, acesso e acessibilidade, econômica,  dificultando principalmente as ações de enfrentamento à covid-19, no Brasil de 106.574 mil mortes e mais de 3 milhões de infectados (https://www.ufpe.br/http://www.adufepe.org.br/adufepe-articula-movimento-nacional-em-defesa-do-orcamento-das-universidades-federais/).  

Mas, diante de tudo isso e do quadro pandêmico necropolítico brasileiro, a quem interessa o disfarce de uma certa domesticação e apelos por popularidade da direita e extrema direita? A quem interessa se apropriar do efeito social do auxílio emergencial? A quem interessa sequestrar a agenda e pautas progressistas, democráticas? A quem interessa seguir matando gente e a soberania econômica e popular? Pensamos que basta reconhecer, querer enxergar, quem está perdendo familiares, amores, amigos queridos. Quem está sendo torturada, ludibriada, desassistida, enlouquecida, prejudicada, infectada, morta e enterrada em vala comum pela covid-19. Seguramente, e em sua maioria, não são os neoliberais, não é a elite do atraso, como designa Jessé Souza (https://www.youtube.com/watch?v=olTVx45aKpo&t=397s ).

Projeto de desenvolvimento nacional, novo pacto e proteção social, renda básica, tributação da altas rendas e patrimônio, solidariedade, distribuição de renda, empatia, emprego formal, educação, acessibilidade, partilha, coletividade, sustentabilidade, alegria, universalidade, justiça social, igualdade, lazer, integralidade, respeito às diferenças, espiritualidade, lucidez, cooperação, entre tantos outros valores, deveres, princípios, organização e direitos democráticos disponíveis para estancar as mortes, perdas irreparáveis, por covid-19 e operar resolubilidade na esfera pública e no tecido social brasileiro. O ego, o narcisismo do sujeito ocidental neoliberal, vai encarar essa tarefa existencial? Que organização, classe social, partido, coletivo, realidade social, sindicato, tem capacidade efetiva para realizar essa tarefa hoje? Eis o retorno de uma arcaica, imprescindível e limítrofe questão: ser ou não ser.   


Sandra Ataíde e Keyla Ferreira

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