Giras(sóis)

Girassóis para se despedir de abril e receber o mês de maio

O Girassóis desta semana vai ao passado das publicações para ressignificar o presente e o futuro em um mundo que precisa se reinventar e reconstruir frente e após a pandemia do covid-19. Assim, honrar a cosmovisão amazônica, estabelecer um diálogo profundamente respeitoso e aproximativo com o seu ponto de vista, com sua gênese no corpo e posição de sujeito, procurar deslindar lutas, denúncias, eventos, proposições, estudos, mobilizados pelos povos indígenas e pesquisadores no decorrer de todo o mês de abril de 2020, são os eixos norteadores do giro semanal que preparamos para você. A ênfase incide na noção cosmopolítica da perspectiva amazônica, xamânica, sobre a covid-19 e o crescimento dos riscos de genocídios dos indígenas nesse contexto de pandemia.

Eduardo Viveiro de Castro, em seu artigo dos anos de 1996 intitulado Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio (1996), argumenta que “a distinção clássica entre Natureza e Cultura não pode ser utilizada para descrever dimensões ou domínios internos a cosmologias não-ocidentais sem passar antes por uma crítica etnológica rigorosa”, chamando-nos a atenção para a necessidade de, num sentido, problematizar a histórica cisão criada entre natureza e cultura, sujeito e objeto. Noutro sentido, considerar pesquisas antropológicas e etnologias, clássicas e contemporâneas, que enunciam não apenas a necessidade de coexistência paradigmática entre a ciência ocidental e a visão indígena. Mas o caráter fenomenológico, perceptivo, multinaturalista, do perspectivismo ameríndio, “no qual a condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade” (1996). Seu horizonte de subjetivação e dessubjetivação, compreensão do mundo e dos seres da natureza, não é a espécie humana, é o não humano (animais ex-humanos que matamos demasiadamente para comer). É o nosso modo destrutivo de estabelecer relação com meio ambiente, interação com as pessoas, entre outros. Portanto, não só os corpos têm alma. Todavia a alma e espíritos também possuem corpos, se metamorfoseiam (roupas animais), são plurais e com características sui generis. Daí a origem, para perspectivismo ameríndio, do aparecimento das doenças, principalmente, a pandemia atual da covid-19 no mundo: o avilte, ataque, destruição, da natureza feita pelo “ser humano” capitalista e dito “civilizado”.

Davi Kopenawa, atual xamã do povo Yanomami, em seu livro A queda do céu (2015) que, inclusive, foi prefaciado por Viveiros de Castro, diz para os brancos acerca do devir outro, outra maneira de ver e estar no mundo. Descreve seu processo de iniciação e relação com Omama, único e grande corpo onde habitam seres invisíveis (concebida por nós como biosfera) e com os xapiris. Esses são legiões de duplos invisíveis da floresta compreendidos por Kopenawa enquanto detentores e distribuidores das verdades que fundamentam os valores e os princípios que, por sua vez, orientam o pensamento e a vida Yanomami na floresta. Bem distinta da trajetória constitutiva da mente do branco que, por não manter contato nem conexão com sua própria alma nem espíritos da natureza, é confusa e propensa a agentes patogênicos que se protegem dentro do seu organismo como hospedeiro natural, fazendo-lhe agir de forma violenta e apartada do meio ambiente. Por isso, para Kopenawa, o branco se inscreveu na terra como o povo da mercadoria. Enquanto o branco dorme e se vangloria com todo tipo de mentalidade egocêntrica, atitudes de conquista e desmatamento, acumulação de riquezas, impondo suas mentiras e espingardas, no silêncio da floresta o povo Yanomami se integra e alimenta os xapiri, e é por isso que ele é capaz de viver e cuidar da sua vida, da

floresta, ouvir sua voz e seus cantos, perceber suas danças de apresentação e assimilar a verdade: a existência da diversidade dos modos de vida, seres humanos e não humanos no nosso mundo. Essa é a verdadeira escola e educação para esse povo, com suas lições de respeito, preservação, sabedoria, amor pelo mundo e pela vida da floresta, protegida pelos xapiri que, até aqui, mantêm o céu no lugar. Com saberes e sabedoria de que a terra é a casa do corpo físico e este é o suporte da experiência terrena, o ponto de vista amazônico de mundo é integrado.

Mas agora o vírus da covid-19, um ser não humano que, assim como nós, faz parte da natureza, com ajuda do capitalismo mundial se espalhou rapidamente na terra, parando todas as culturas, economias, produtividades, privatizações, enfim, todo o processo de financeirização da vida que estava em marcha no planeta disputando, com e dentro dos seres humanos, a oportunidade e o direito de viver, pois também faz parte da nossa biosfera. Que, a propósito, parece até estar atualmente se auto gestando e se protegendo das investidas, agressões, loucuras, da espécie humana.

Intensificando a mediação antropológica nesse contexto de pandemia, a antropóloga Els Logram publicou o artigo Nisun: a vingança do povo morcego e o que ele pode nos ensinar sobre o novo coronavírus (jornalistaslivres.org/nisun-a-vinganca-do-povo-morcego-e-o-que-ele-pode-nos-ensinar-sobre-o-novo-coronavirus/), baseando-se no perspectivismo ou modo de vida ecosófico dos Huni Kuin (Do Acre e do leste da floresta amazônica peruana), descreve sua forma de estabelecer relação e convivência com humanos e não humanos, lançando mão do uso de plantas psicotrópicas, a exemplo do tabaco e do cipó. Entre tantas outras prerrogativas dos Huni Kuin sobre os motivos do surgimento das doenças, a autora chama-nos a atenção para duas: o hábito alimentar de comer animais e a forma extrativista através da qual os brancos interagem com a terra e seus recursos naturais. Isso resulta, em seu conjunto, no envio de nisun, como forma de vingança emplacada, geralmente, por seres não humanos e invisíveis, por ocasião das mortes dos animais e da constante agressão dos brancos à natureza. Daí o ataque atual do vírus da covid-19, implicando na suspeita da “passagem do vírus de uma espécie de morcego (horseshoe bat) que vive nas florestas Chinesas para o ser humano…outro animal que hospeda um vírus geneticamente muito similar é o pangolim, um tipo de tatu asiático que a população chinesa usa como iguaria e remédio…apesar da sua comercialização ser proibida”. Com essas hipóteses, resta-nos saber o tanto de interesse e humildade dos cientistas e especialistas ocidentais de escutarem as vozes da floresta e compartilharem seus conhecimentos e sabedoria.

Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e nascido no território do vale do rio Doce, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo (2019) e também em suas palestras, presenciais e virtuais, propõe para a gente uma nova experiência subjetiva que possa reconhecer, ver, escutar, perceber, se conscientizar, da complexidade e magnitude da diversidade das formas de vida e modos de habitar o mundo. Ele fala da nossa “distração” constitutiva, nossa displicência histórica, que foi se permitindo desenvolver sob a égide da nomeação exótica europeia de “civilização dos trópicos” e culturalmente inferior. Assim como, da implantação do pensamento, mentalidade, racionalidade, colonial na relação conosco, com a terra e com os outros, levando-nos a dois grandes prejuízos. Um é a concepção de humanidade separada da complexidade da natureza. Outro é a ascensão de sistema e governantes “atentos” e radicalmente excludentes, que objetivam seres em fontes de riquezas e colonizam o organismo da terra. Esses prejuízos estão na origem dos constantes e severos desastres socioambientais, a exemplo da atual pandemia da covid-19. Krenak denomina nosso tempo de Antropoceno, para designar o período da história da terra em que ela está sob forte interferência humana. “O rio Doce, que nós, os krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa, não um recurso”, como dizem os economistas, afirma Krenak, convidando-nos a despertar, cuidar, expandir, enriquecer, nossa subjetividade, corpo físico e o mundo, pois são matérias através das quais temos a experiência de existir na terra e que o Antropoceno cego deseja, a tudo custo, consumir e colonizar.

Finalizando nossas preliminares aproximações à cosmovisão, à filosofia amazônica, trataremos da agenda de luta e proposições do 16º Acampamento Terra Livre – Encontro Nacional em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, que sempre acontece em Brasília e, devido o isolamento social, ocorreu online nos dias 27 a 30 de abril de 2020 (www.youtube.com/watch?v=he1Y0GklF8I), conectando os povos indígenas, do Brasil e no mundo, organizações, associações indígenas (APIB, MNPI, outros) e apoiadores visibilizando a auto-organização, denúncias, lutas, resistências, históricas que, apenas no Brasil, perduram ao longo de 520 anos. Com apresentação de mesas e painéis, o 16º ATL virtual debateu este ano, entre outros temas, Defesa do isolamento social como forma de controle da pandemia da covid-19; Falta de assistência e cobertura de saúde; Fome e invasão de garimpeiros, agronegócio, desmatamento e destruição de território indígena; Feminino Sagrado; Desmonte Políticas de Direitos; Crítica à gestão atual da FUNAI; Mostra indígena de filmes e vídeos. Enfim, uma grande mobilização mundial com uma programação grito, alerta, advertência, ao branco, em termos de invisibilidade, vulnerabilidade, abandono, desses povos, “reafirmando nossa posição contra esse governo genocida, institucionalmente genocida, que não se preocupa com a vida de ninguém, muito menos com nós indígenas…nós não temos como continuar nessa linha de frente assistindo a morte dos nossos parentes” (www.youtube.com/watch?v=WUEv6-JnKec&t=299s). Para o ATL 2020, com o aumento da invasão dos brancos em áreas indígenas, sobretudo, nesse período de isolamento social, o espalhamento do vírus covid-19 já matou 15 indígenas na amazônia brasileira, com 82 indígenas contaminados em cinco estados federativos.

Segundo o Conselho Indigenista Missionário, com a saída de 20 mil médicos cubanos do nosso país, 90% deles serviam em aldeias indígenas agravando, ainda mais, sua condição de vida e situação de saúde no contexto de pandemia. “Os povos indígenas pedem socorro”, gritam lideranças e caciques do povo Omagua-Kambeba da Amazônia (Alto Solimões), denunciando e pedindo ajuda e solidariedade aos brasileiros, frente à realidade dramática de abandono do Estado e crescimento de óbito por covid-19 entre eles, resultando na publicação da nota de apoio da UPMS, ANPED, UPMS, SEPE, CEASM, MUSEU DA MARÉ (www.anped.org.br/sites/default/files/images/apoio_povo_omaguakambeba_com_anexo_1.pdf). Terminamos com mais um alerta ao kuben (homem branco) vinda, dessa vez, do Cacique Raoni: “Peço a vocês kuben que pelo menos me escutem. Pensem nos seus filhos, netos e bisnetos. Logo virão outras coisas piores” (www.youtube.com/watch?v=wWt5PIHtblA).

Keyla Ferreira e Sandra Ataíde

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