EntreLAÇadOS

DIÁRIO DE LEITURA 1

MITOS SOBRE A SEXUALIDADE DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA: Quando se afasta
não conhece, quando não conhece se afasta.


E se um dia você acordasse e não enxergasse mais o mundo da mesma forma, ou se por
alguma infelicidade, de uma hora para outra, você adquirisse alguma dificuldade motora? pensar sobre essas possibilidades de se deparar com a fragilidade do nosso corpo para a maioria de nós é incômodo e amedrontador. Ao ler o texto de Maia e Ribeiro, comecei a refletir sobre como a vulnerabilidade do corpo e da existência de deficiências no outro, de certa forma, pode nos fazer lembrar das nossas próprias vulnerabilidades e das nossas limitações.

A deficiência é o termo usado para definir a ausência ou a disfunção de uma estrutura
psíquica, fisiológica ou anatômica, mas seria isso um fator determinante para limitar e definir o que alguém é? Acredito que não é possível resumir a subjetividade, sexualidade, personalidade e toda vivência de uma pessoa a um só termo. Se somos seres multideterminados, então, porque limitar as possibilidades de ser?

Segundo o dicionário brasileiro de língua portuguesa, deficiente é, “todo aquele com
algum tipo de falta, erro ou falha”. Em uma sociedade excludente, desigual e preconceituosa, não seríamos todos nós, deficientes de algo? Me pergunto se isso “freud explica.”

A teoria dos mecanismos de defesa do inconsciente, proposta por Freud sugere que os
mecanismos de defesa são estratégias psicológicas, que o ego aplica para lidar com o conflito entre desejos instintivos e as demandas da sociedade. No contexto dos mitos em torno da sexualidade das pessoas com deficiência, podemos ver a presença de alguns mecanismos de defesa que contribuem para disseminar essas ideias prejudiciais, em especial, irei aqui destacar 3:

Negação: Onde a sociedade evita confrontar a complexidade da sexualidade dessas
pessoas, preferindo acreditar na inexistência de desejos sexuais, negando a validade das experiências individuais.

Projeção: A projeção envolve atribuir a outros os sentimentos e desejos não aceitos em
si mesmo. Nesse caso, a sociedade projeta sua própria incompreensão, medos, tabus sexuais e o confronto com a sua própria fragilidade, causando a infantilização desses sujeitos.

Racionalização: A racionalização envolve justificar pensamentos ou comportamentos
inaceitáveis com argumentos plausíveis. Os mitos em torno da sexualidade das pessoas com deficiência podem ser racionalizados como “proteção” ou “cuidado”, enquanto, na verdade, estão enraizados somente em ignorância, contribuindo com a marginalização dessas pessoas.

Esses mecanismos de defesa ilustram como os mitos em torno da sexualidade das
pessoas com deficiência podem ser sustentados pelo inconsciente coletivo, refletindo a dificuldade da sociedade em lidar com temas complexos e desconfortáveis, e assim auxiliando no crescimento dos estigmas relacionados à vida dessas pessoas. Superar esses mitos requer uma abordagem consciente de reconhecimento e desafio desses padrões, promovendo educação, compreensão e empatia em relação à diversidade sexual em todas as suas manifestações.

Conhecimento é poder”: além de se informar e buscar saberes para melhor lidar com a
diferença do outro, quanto poder pode existir em se conhecer e refletir sobre si mesmo? Em sua música intitulada “Me curar de mim” Flaira Ferro faz essa reflexão:

“…Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita
Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa
Sou carente, amostrada
Dou sorriso e sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira
E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói despir-se assim
Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim…”

Refletir sobre si mesmo e cultivar a compreensão das diferenças do outro são alicerces
fundamentais para erradicar os estigmas.

Ao olharmos para dentro, ganhamos a capacidade de reconhecer nossos preconceitos
enraizados e nossas limitações na compreensão do mundo diverso que nos cerca. Esse
autoexame nos impulsiona a desenvolver empatia genuína, reconhecendo que cada indivíduo, independentemente de suas capacidades físicas ou mentais, possui uma riqueza única a oferecer à sociedade. Através da reflexão e da aceitação das diferenças, podemos construir uma cultura inclusiva que não apenas derruba barreiras físicas, mas também supera barreiras mentais, promovendo a valorização da diversidade humana e contribuindo para uma sociedade mais justa e igualitária para todos.

Podendo assim, enfim, sermos nós mesmos, seja quem formos.

Jonas Gabriel de Oliveira Gomes
Recife, 2023

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1 Diário de Leitura produzido no contexto da disciplina “Aspectos Sócio Afetivos do Desenvolvimento”, oferecida ao primeiro período do Curso de Pedagogia da UFPE, no turno da noite.

7 comentários em “EntreLAÇadOS

  1. Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
    Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.

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  2. Que lindeza de texto!! tão profundo e tão adequado aos nossos tempos!! Gratidão pela concessão do maravilhoso texto, Newton Moreno.

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