EntreLAÇadOS

EM BUSCA DE QUAL TEMPO PERDIDO?

Quero dialogar meu isolamento com o tempo. É possível dizer, em referência ao filme Meet Joe Black (1998), que é um encontro, mas que diferentemente do filme, não foi marcado, mas aconteceu. Não existe o signo do tempo, ele não é de horas com ascendência em segundos. É somente o tempo.

O primeiro diálogo com o tempo que tive foi sobre os meus sonos, mais especificamente o tempo dos sonos perdidos. Na primeira semana de isolamento pensei, “querido tempo, vou lhe dar de presente aos meus sonos perdidos, tudo irá passar o mais breve”. Uma semana, duas semanas…a negação do “passar mais breve” toma forma de incertezas. A conscientização sobre isso faz com que eu não ofereça o tempo de presente ao meu sono e o meu sono tinha o tempo na porta. Assim, com a primeira negativa superada, passei a não ter mais sono, definitivamente, mas ainda tinha o tempo de modo geral. O sono foi tomado por números, nomes, status em redes sociais, declarações, Lava Jato, e daí? melodias sentimentais. O tempo passava por mim quando eu ia ao banheiro e me perguntava ironicamente pelo sono, eu fechava a porta com muita raiva e dizia “foi dormir!”. Uns chás de camomilas, e umas doses de Rachmaninoff, a relação entre tempo e sono foi parcialmente resolvida, embora a lua ganhando para o sol.

Depois, com o passar do tempo do sono, veio o tempo da culpa. Eu deveria ter ido comer mais pizzas com os meus amigos, deveria ter ido ao chá de bebê de Maria, deveria ter conversado mais tempo com o João, cantado mais poesias com Madalena, jogado fora o tempo com José, pegado mais caronas com a brisa do mar, reclamado menos do Barro/Macaxeira (a relação de amor e ódio muda com o tempo, como é possível observar). Com o tempo da culpa, veio o tempo da não-socialização (ordem, progresso e Vygotsky, assim espero), o silêncio forçado tomou conta de mim, ele é estranho. Podem aclamar a tecnologia como quiserem, mas para o abraço, nada melhor foi criado. O tempo da culpa é resultado da ausência do abraço, é a minha tese, Freud que refute, estou histérica mesmo. Mas em contrapartida encontrei outro tempo, o tempo em família, esse, coitado, vivia ocupado. O tempo família ficou mais presente, é confortante ter sua família por perto, agora sei por que nos livros Hermann Hesse o caminho de volta para casa sempre são melhores que a ida. Triste é saber que outras famílias vivem outro tempo, o das ausências. Coloco-me como privilegiada, não tem como, tenho o tempo da família dormindo comigo hoje. Escuto daqui a rádio da minha mãe, ela vai dormir em breve, está bem é confortante.

Depois apareceu um tempo mais cientifico, é ele que anseio e tenho esperança de ouvir e achar. É um tempo que precisa passar rápido, precisamos de uma vacina, historicamente sempre foi assim. A cura do amor é o amor em todas as dimensões, a cura do vírus é a ciência. Os humanos estão em um relacionamento sério com o conhecimento e o tempo é a maior DR que existe neste momento.

Por último, decidi focar minhas energias em um tempo que já estava demorando encontrar e considero o mais importante para mim hoje, fazia um “tempão” que eu marcava com ele, flertava uma tapioca, um cineminha ou um café às 16 horas (em ponto)….ele é o tempo comigo, o meu tempo de reconhecimento como mulher. Imagina, esse é um tempo difícil de conversar, acredite, principalmente quando nos atribuem milhões de responsabilidades, milhões de expectativas, milhões de distinções. O tempo de olhar para dentro é complicado, de me reconhecer como parte de um gênero oprimido em todas as dimensões, sociais, raciais, culturais, comerciais e do horário nobre das novelas. As perguntas foram difíceis de formular: o tempo da minha vida foi meu (aí que sofrimento lembrar Elis Regina cantando Como Nossos Pais), as minhas lágrimas e meus sorrisos, quais são seus tempos? (lá vem Virgínia Woolf), como me tornei mulher (Beauvoir que chama)? Qual a minha posição nas desigualdades? Quais meus privilégios? O que posso fazer para ajudar outras mulheres para que elas tenham tempo? Tempo justo, com direitos, com amor próprio, respeito e igualdade de oportunidades. Qual o toque da sola do meu pé? Quantas mulheres olham para os seus pés, seus ombros, pernas, para suas vaginas, para os seus seios, para seus olhos e se reconhecem simplesmente como únicas? Estou aqui em busca de um tempo coletivo e individual, dialético.

Encontrar este senhor tempo foi difícil. Na calada da noite, tinha horas que ele era otimista, outro pessimista. Outrora lavava louça comigo ou estava na televisão, nos noticiários, no rosto de mulheres pobres, negras, moradoras de periferias, perdendo seus familiares por falta de atendimento, de trabalhadoras informais responsáveis pelas rendas de suas casas em busca de auxílio. Das mulheres lutando para salvar vidas em hospitais, o tempo da violência, de saber que a mesma, contra a mulher, aumentou. Imagina o que é a dimensão do tempo para estas mulheres?

Então decidi, na calada das incertezas, por unanimidade de 24 horas e um milênio, que não era em busca do tempo perdido que eu passaria o isolamento social, mas em busca de compressões para o tempo que virá. Escolhi um recorte, é fato, mas todos podem escolher outros, para emendarmos o estrago que o tempo perdido deixou.

Hoje sei que o tempo tem a dimensão da eternidade, mas estou aprendendo, que a eternidade é um dia, que é Eternity and a Day, como já diria o saudoso Theo Angelopoulos. Mas que na minha eternidade de hoje, decidi indiscutivelmente olhar no espelho e dizer, como vai você? Precisamos saber das tuas vidas.

Dayzi Oliveira

6 comentários em “EntreLAÇadOS

  1. Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
    Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.

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