EntreLAÇadOS

Quarentena

Começar a escrever sobre ela poderia ser assim: aqui estou mais um dia…, seria um diário escrever sobre isso? O início lembrou a letra da música Diário de um Detento da banda de rap Racionais MC’s, já que por um lado estamos nos sentindo detentos mesmo ou é apenas uma quarentena? Bom, apenas a quarentena sendo cumprida, mas até quando?

Quando ouvir falar na quarentena associei ao nome e pensei: Ah será apenas quarenta dias tranquilo de suportar, mas já se passaram esses quarenta, outros dias permanecem e o incômodo vem e me ponho a pensar como pode um vírus nos tirar tanto, mas trazer outras coisas que são relevantes ao mesmo tempo? As mudanças nos trazem reações, principalmente, se não forem as mudanças desejadas.

Se eu for pensar o que ele tem me tirado, acredito que é comum a todos dizer de imediato o que mais se gosta, ou então, é unânime a resposta do que ele tem nos tirado: a nossa rotina diária que muitos têm, de estudo, trabalho, a convivência com as pessoas, poder ir para a rua sem se preocupar, programar uma atividade simples de final de semana ou, às vezes, durante a semana mesmo: ir para o cinema, andar de bicicleta na praia, ir para o parque, para o shopping, sair com os amigos, visitar os amigos e parentes, ir para um show, comprar o que está precisando e também poder planejar uma viagem. E como é bom fazer isso: poder planejar de acordo com o ciclo “normal” das coisas, pois podemos ter a ideia se vamos poder cumprir ou não, de acordo com o mês certo das férias ou quando terá aquele feriado para fazer isso ou se não podemos fazer por conta daquela prova ou do dia que talvez iremos trabalhar no final de semana.

Não sabemos mais quando será aquela prova do concurso que queremos fazer ou de outras que estávamos esperando, porque por enquanto tudo ainda é incerto e não é possível nada ser devidamente agendado.

Muito impactante a situação de diferentes lugares do mundo como a Itália, que tem devastada grande parte de sua população e penso: o que esperar para o Brasil?

Trabalho em uma escola na cidade de Recife onde nela meu convívio diário é como em qualquer trabalho, com diferentes pessoas que são os funcionários e com a parte que é para mim a mais especial de qualquer instituição de ensino: os estudantes. Sinto falta demais, dos sorrisos, dos intervalos, das aulas, de acompanhá-los, das diversas situações que presencio, penso em todos e como está sendo para eles ter aulas online. Conforta-me saber que, de certa forma, somos privilegiados, sim, por estarmos

podendo cumprir a quarentena da forma adequada. Vejo nos demais bairros da periferia, e como a periferia não para, até em uma situação como essa, as movimentações são constantes. Claro, pois o contexto social é outro e existe a necessidade de trabalhar das pessoas para se manterem e atenderem as necessidades das pessoas que moram ao redor. Penso nas pessoas que não têm uma casa com estrutura para atender as necessidades de higiene que estão sendo exigidas de nós, além de outras como alimentação adequada, além das crianças sem escolas. Penso também nos profissionais que estão o tempo todo trabalhando para nos atender: os médicos, os enfermeiros, os funcionários dos supermercados, das farmácias, dos hospitais em geral. E os profissionais que estão em quarentena? Quando tudo isso acabar deveria ser dado o reconhecimento diferente para eles. Falo em especial aos professores, é muito notável a falta que estes têm feito para a rotina dos pais e de todos, e como a escola movimenta tudo, os lugares e as pessoas.

Vejo como a arte deve e precisa ser mais valorizada. Se não fosse ela como estaríamos, já que estamos consumindo tantos filmes, lendo tanto livros e escutado tanta música, dentre outras coisas ligadas à arte, como estaríamos sem tudo isso?

Tenho convivido muito com a minha família. A convivência constante faz a gente ver mais os costumes do outro e o outro também ver o nosso. Como é valido o respeito mútuo, respeitar o limite do outro. Penso se quero manter os mesmos costumes dos meus pais e como os exemplos que são contrários ao que queremos também nos servem para não fazer igual.

A minha maior vontade é que isso tudo passe logo, continuar com a rotina, por em dia os encontros prometidos, as vontades guardadas.

Acredito que depois de tudo, gostaria que as pessoas parassem para olhar nas suas reais necessidades. Acho que é um bom momento para isso, do que realmente precisamos para viver bem com conforto? Claro que cada um tem o seu conceito do que é conforto, mas as nossas necessidades são diferentes das nossas vontades e não seria o nosso consumo que acaba por fazer tudo isso que está acontecendo? Ele nos consome.

Por fim, se eu for pensar o que todo esse contexto tem me dado, são reflexões e a maior delas tem me levado a fazer o que mais procuro praticar ultimamente que é não me manter presa nas coisas que quero falar, pois as mesmas são o que tenho sentido, não guardar mais tanto o que quero dizer. Lógico que de uma forma que julgo coerente.

Pensar nas pessoas que quero manter em minha vida, quais são as que quero me aproximar mais e tem me feito muito bem em saber quando o sentimento é recíproco.

Acho que já estamos presos demais para ainda não dizer o que queremos e pensamos. Às vezes, podemos mudar o dia de alguém com uma simples mensagem de carinho ou, então, dizer o que estava guardado há muito tempo.

O que teremos é a sensação que jamais será esquecida: a da experiência, experiência de algo marcante que quando é assim pode-se julgar como de fato termos tido uma e muita coisa para contar para os que vão vir.

Sigamos!

Bruna Mércia

6 comentários em “EntreLAÇadOS

  1. Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
    Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.

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