EntreLAÇadOS

Reflexões de uma mãe de três nesta quarentena

A maternidade é, a meu ver, uma das coisas mais marcadas por sentimentos diversos. Nela, tudo é intenso: cansaço, amor, medo, culpa… Todos estes sentimentos, em tempos comuns, marcam o cotidiano de quase todas as mães (na minha maternidade, certamente). Em tempos como os atuais, nos quais experimentamos pela primeira vez no Brasil um isolamento social derivado de uma crise na saúde, podemos potencializar todos eles pela milésima potência.

Isso porque, como mães passamos a desempenhar 24 horas por dia, sem rede de apoio ou rota de fuga, a intensidade do sem fim trabalho doméstico e dos cuidados com os pequenos. As crianças. De fato, precisam de nosso amor e cuidado e, por isso, cabe a nós – adultos da relação – mantê-las sãs, amadas, alimentadas e seguras.

Dar conta disso não é pouco, nem simples. Pode parecer pequeno, mas no meu caso, são 15 refeições por dia, entre 6 e 9 banhos por dia, 9 escovações de dentes, 20 trocas de fraldas, cuidados com remédios diários, estimulação, tarefas da escola, atividades brincantes, infinitas crises de choro, briga entre irmãos…

Quando somos mães e profissionais, recebemos, ainda, uma cobrança social para que trabalhemos, como se não fôssemos mães; e que sejamos mães, como se não houvesse trabalho a fazer. Em tempos de redes sociais, às vezes esta cobrança vem diretamente e, em outros, vem atravessada daquela mãe perfeita que fez da sala de sua casa uma escola montessoriana para que o filho pudesse se desenvolver plenamente. E no meio dessa cobrança extrema, atrelada aos afazeres domésticos e às necessidades pessoais da mulher, tudo fica intenso demais e chegamos a acreditar que, se outros podem, nós também podemos seguir como se a normalidade ainda fosse possível.

Foi pensando nestas questões que rememorei o poema Enjoadinho, Vinícius de Morais.

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa Transpõe o espaço

Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

E, a partir dele, pensei: Quantas vezes nesta quarentena, mortas de cansadas, mães não pensaram como seria a nossa vida agora se eles não existissem? Junto com a questão vem, imediatamente, uma culpa enorme, que nos faz sentir a pior mulher do mundo; que nos faz sentir como se este sentimento apagasse ou tornasse invisível o enorme amor que sentimos pelos nossos pequenos.

Então lembramos, que coisa linda, que coisa louca que os filhos são. Como é lindo e louco, também, este amor que sentimos por eles e que nos preenche de energia para que continuemos em frente, mesmo exaustas. Sim, as mães cansam. O mais surpreendente é que até nós, por vezes, sentimos culpas por estarmos cansadas.

E passamos a tratar a maternidade com esta ambivalência – ou isto ou aquilo – marca nossa sociedade: ou se ama as crianças, ou se reclama do trabalho que elas nos dão; ou se é uma mãe maravilhosa, ou admite que não dar conta de tudo agora… Quando, na verdade, deveríamos pensar que é, ao mesmo tempo, isto e aquilo.

Então, na maior parte das vezes, cansamos caladas, solitárias, porque estamos exaustas, mas não temos coragem de falar por darmos voz e vez ao isto ou aquilo. Nos sentimos mal em lamuriar ou confessar o “enorme pecado” de ser uma mãe que não aguenta mais, ou de reconhecer que também precisamos de cuidados.

Foi no bojo desta reflexão que decidi fazer minha confissão: Que coisa linda, que coisa louca que os filhos são. Mas, também, que canseira que estou por cuidar deles sem a rede de apoio que eu contava integralmente e que, por razões óbvias, não estão disponíveis neste isolamento. Reconhecer este cansaço é muito importante nestes momentos, para que possamos, quando urgente, descansar. Readaptar a rotina para continuar, de outro jeito, com menos cobranças, com mais consciência da realidade. A realidade de agora, neste isolamento que deixa tudo mais difícil e que não tem data para acabar.

Para que consigamos olhar para os filhos com os olhares fraternos que eles precisam, precisamos, também, olhar para nós mesmas com o olhar de generosidade. De quem pode, sim, parar, deitar-se, respirar e, até mesmo, querer desistir. O que não podemos, tendo-os em casa, sob a nossa responsabilidade, é jogar tudo para o alto. Com isso quero dizer: controlamos o que fazemos, mas não o que sentimos.

Então, concordando com Comte-Sponville no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, penso, hoje, que as mães, em relação a seus filhos, possuem a maioria das virtudes que geralmente nos faltam (e que lhes faltam), ou antes, o amor nelas toma o lugar das virtudes, quase sempre e as liberta – pois essas virtudes só são moralmente necessárias, quase todas, por falta de amor. O que há de mais fiel e mais prudente, de mais corajoso, de mais misericordioso, de mais doce, de mais sincero, de mais simples, de mais puro, de mais compassivo, de mais justo (sim, mais que a própria justiça!) do que esse amor?

Esse amor que é lindo, que é louco, que é intenso, que é maravilhoso. Esse amor que é incomparável e que nos alimenta sempre de mais forças quando não temos mais muito onde buscar. Então nos perguntamos: e por que sentimos emoções negativas mesmo diante de um amor tão profundo?

É então que Sponville nos diz: Não é sempre assim? Eu sei: também há a loucura das mães, a histeria das mães, a possessividade das mães, sua ambivalência,

seu orgulho, sua violência, seu ciúme, sua angústia, sua tristeza, seu narcisismo…. Sim. Mas o amor quase sempre intervém nisso, o amor que não anula o resto, mas que o resto não o anula.

Meu desejo de hoje, nesta quarentena, é que o enorme amor que sinto pelos meus três meninos intervenha sempre em minha exaustão, na minha angústia, na minha tristeza. Para isso, peço que este amor seja, também, misericordioso comigo mesma, para que eu possa aceitar que ele não apaga todo o restante da teia de sentimentos que me acompanham, mas intervém neles para que, cada vez mais, eu tenha forças para continuar amorosamente.

(Catarina Gonçalves)

6 comentários em “EntreLAÇadOS

  1. Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
    Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.

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