EntreLAÇadOS


Relatos da Quarentena

Hoje, 29 de abril, completo 41 dias de isolamento social e este período tem sido um processo bem interessante para mim do ponto de vista individual e coletivo…

Pensar nesse momento de isolamento é pensar, primeiramente, na minha vida afetiva, para, então, seguir pensando sobre o atual momento ambiental, social e político que estamos vivendo.

No final de janeiro, após dois anos e meio de casamento e um relacionamento que já durava quase cinco anos, eu e o meu companheiro decidimos nos separar, sem muito estresse ou traumas profundos. Então, voltei a viver sozinho, após cinco anos em que, metade deles vivi com uma amiga, a qual dividimos um apartamento e a outra metade, casado. Nisso, tive que lidar com a dor da separação, reconstruir a minha autoestima e me reconhecer um ser sozinho em uma casa e lidar com a solidão. Mas, até aí, tudo bem, porque o trabalho me tomava um tempo razoável, tinham os afazeres domésticos, um cursinho no final de semana e alguns encontros com amigos em barzinhos ao final dos dias de sábados e domingos. Mas, um mês e meio depois de separado, tive que ficar confinado em uma casa 24 horas por dia, sete dias por semana e lá se vão mais de um mês.

Penso que, mesmo esse sendo um momento crítico e desesperador, há um ponto positivo nesse confinamento para mim, pois eu passei a perceber que o que estava vivendo, o sofrimento com o término do relacionamento, era algo pequeno em relação ao que o mundo está passando. Meu pensamento se voltou para as muitas mortes que ocorreram e ainda ocorrem no mundo inteiro e as milhares de pessoas em situação grave de saúde. Com isso, passei a pensar cada vez menos sobre a minha situação e cada vez mais sobre o atual momento que o mundo vem experienciando. E conforme os dias foram passando, eu me peguei, aquariano inquieto como sou, querendo produzir conteúdos para deixar a minha quarentena e também a de pessoas que me seguem nas redes sociais, mais leve. Com isso, produzi alguns vídeos recitando poemas, poesias e crônicas e também produzi algumas poesias e crônicas e “joguei” em forma de texto nas minhas redes.

Me percebi também cuidando mais da minha casa, apesar de ser uma pessoa cuidadosa e responsável com o meu lar, me tornei ainda mais cuidadoso e responsável com o ambiente que tenho passado todo o tempo. Como sou educador social, apesar do trabalho no território ter sido interrompido, ainda continuamos a trabalhar em modo “home office”, tendo reuniões regulares e tarefas cotidianas. Com isso, eu mantive uma rotina de horários para acordar como se fosse sair de casa, então, me levanto geralmente as 7h da manhã, preparo o meu café, assisto o jornal local e, logo após me organizar, me preparo para trabalhar. Óbvio que as coisas não funcionam 100% de modo esquemático, mas tentamos.

Tenho procurado trabalhar a questão mental com a retomada de algumas leituras que foram esquecidas, também fazendo algumas técnicas de respiração e exercícios físicos, para isso baixei alguns aplicativos pelo smartphone, que me ajudam a realizar os exercícios.

Nos últimos tempos eu tenho me assustado bastante com os rumos que essa pandemia tem tomado no país e também com o atual momento político que estamos vivendo. Se por um lado, o vírus segue matando, a política genocida atual segue ajudando no aumento dessas mortes. Com isso, eu temo pelo futuro da nossa sociedade e como vamos lidar com o “pós pandemia”, pois haverá muitas pessoas adoecidas, enlutadas, sem trabalho, sem casa, mais empobrecidas e com maior dificuldade de retomar à rotina, a exemplo disso, temos a cidade da China, que foi o epicentro do vírus, onde as pessoas estão bastante fragilizadas após a retomada das suas atividades cotidianas. Mas, também, acredito e tenho esperança que uma parcela da sociedade, que está mais envolvida com práticas colaborativas e de solidariedade irão sair mais fortalecida, com ideias de humanidades coletivas e de maior afeto e empatia.

Por Cristiano Ferreira

6 comentários em “EntreLAÇadOS

  1. Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
    Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.

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