Sexualidade na terceira idade: tabus e realidade –
Nem sugar baby, nem velha da lancha 1
Lúcia Helena Santana de Assis
Refletindo sobre os tabus e estereótipos da sexualidade na terceira idade, me
deparei com um dilema que sempre compartilho com amigos, em tom de
brincadeira, sobre como me vejo atualmente:
Já tenho idade demais para ser sugar baby; mas ainda tenho idade de menos
(dinheiro também) para ser a velha da lancha…
Logo de início, o texto cita que o número de idosos vem crescendo de maneira
acelerada no Brasil e no mundo e, mesmo ainda não sendo parte do recorte
etário do estudo citado no texto, foi possível refletir sobre diversos aspectos
dessa relação sexualidade X idade, e pensar sobre o tanto que, por muito
tempo, não me permiti tudo que hoje me permito. Quero ser parte da futura
população idosa do mundo, e quero ter direito a viver e expressar minha
sexualidade em toda sua forma, amplitude e complexidade. Essa foi, inclusive,
uma das maiores reflexões: olhar para a sexualidade além do sexo em si, mas
sem também esquecê-lo nesse debate. Entender que, quando falamos dos
tabus da sexualidade na terceira idade, estamos lidando com questões como:
negação da autoestima, desinformação sobre ISTs e cuidados preventivos,
falta de conhecimento sobre o seu próprio corpo, dificuldades de descobrir
novos sentimentos e novos afetos, ou até mesmo de permitir-se desejar sem
afeto… São tantas nuances, que me remetem quase instantaneamente a uma
das minhas músicas preferidas de Rita Lee, que é “Amor e Sexo”.
Logo de início, Rita diz que “Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha
/ Amor é sorte” e, concordando plenamente com ela, eu me peguei pensando:
existe mesmo idade para parar com os livros e com o esporte? Acho que não,
ainda mais nesta mesma sociedade que tanto preza pela cultura e pela saúde
física, não é? Logo, que ironia querer proibir ou apagar as escolhas e a sorte,
sejam no sexo ou no amor, de quem já viveu tanto dessa vida a tanto pode ter
para compartilhar…
E quando eu a ouço dizer que “Amor é bossa nova / Sexo é carnaval”, enxergo
o quanto gosto de ambos e como quero me permitir viver e desfrutar de muitas
bossas e carnavais ao longo do tempo que eu estiver nesse mundo. Aí, falando
de música e carnavais, me vem na mente também a voz de Alceu Valença,
dizendo “quero sentir a embriaguez do frevo, que entra na cabeça, depois toma
o corpo e acaba no pé”. Alceu, no auge dos seus 77 anos, freva e canta e
dança e vive e eu pergunto quem é que ousaria dizer que, por ser velho
demais, ele não pode mais?
A gente pode sempre, desde que a gente queira (e que quem a gente quer,
queira também). Pelo menos deveria ser assim. Eu acho que deveria, sim. Se
todo dia é dia para descobrir e vivenciar algo novo, o que muda com o passar dos anos? Na verdade, eu poderia discorrer muitas e muitas linhas sobre o
peso do capitalismo e todas as questões envolvidas nesse “descarte” à pessoa
idosa numa sociedade onde o lucro e a produtividade são o que realmente
importa, mas eu prefiro voltar, ao menos agora, aos versos de Rita, que me
abraçam em um misto de poesia e protesto, com a maestria ímpar que ela
sempre foi capaz de trazer em sua obra. Fico um pouco saudosa ao falar dela,
que partiu há pouco tempo, porém gosto de trazer sua figura para dentro desta
reflexão, já que “Amor e Sexo” foi lançada em 2003, quando Rita tinha seus 56
anos. Quase chegando aos 60, (idade inicial do recorte etário feito no estudo
apresentado no texto em questão), Rita faz uma análise complexa e divertida
sobre o amor e o sexo, dois temas tão interligados e negados às pessoas que
não mais são “jovens”. Qualquer ironia neste cenário, se tratando de Rita,
jamais será coincidência. E é maravilhoso ver que existe sim o questionamento
e a ruptura desses tabus por parte da própria terceira idade. Hogan diz que a
“sexualidade deve ser compreendida como intrínseca a todo o indivíduo, a
qualquer momento de sua vida, considerada singular a cada pessoa”. Acredito
que, mesmo com tantas tentativas de poda da sociedade, todos nós sabemos
disso, mesmo que lá no fundo.
Escuto os versos “Amor é para sempre / Sexo também / Sexo é do bom / Amor
é do bem” e vejo que esta pode ser uma forma bonita e fácil de resumir tudo
que tentamos analisar e debater ao longo dos estudos deste texto
referenciado… Não existe hora, nem tempo, nem limite para ambos. E não
existe motivo para deixarmos nossa sexualidade de lado. Respeitar a sua
sexualidade é, além de um ato de amor (do bom), um ato de resistência (do
bem).
Vou pedir licença para, neste momento final, discordar de Rita, apenas quando
ela canta que “Sexo vem dos outros / E vai embora”, pois entendo que o sexo,
assim como a sexualidade, pode (e deve!) vir de nós, para nós e por nós.
Aproveito também esse gancho, para citar Ana Suy, que fala no título de um de
seus livros que “A gente mira no amor e acerta na solidão”. Aceitar e tomar as
rédeas da sua sexualidade, do seu amor, do seu sexo… entender que antes de
tudo, essas questões são e precisam ser sobre nós mesmos… abraçar a
beleza da solidão e o leque de relações que podemos ter a partir daí… Enfim,
talvez eu acabe divagando um pouco, o que é meio normal quando tenho
liberdade e afeto pelo tema sobre o qual escrevo. E é assim que me sinto neste
momento, ao analisar e discorrer sobre este assunto: livre e afetiva (o que é um
pouco engraçado, já que estive lendo sobre tantas negações e prisões do
corpo e dos desejos de tantas pessoas). Me pego imersa em um oceano de
pensamentos, questões, dúvidas… E acho que na verdade, isso que é bom,
né?
Por fim (dessa vez de verdade), torço para que minhas reflexões e
questionamentos tenham feito sentido para outras pessoas além de mim, e
abraço uma referência de Sandra Ataíde em seu diário de leitura, que me
impactou de forma inesperada ao citar Valeska Popozuda…
Concluo este diário citando outra grande figura da velha guarda da MPB da
periferia… Como já dizia Tati Quebra Barraco “quem gostou, bate palma; quem
não gostou, paciência”.
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1 Diário de leitura produzido e lido no contento da disciplina Aspectos Sócio-Afetivos do Desenvolvimento

Que Lindeza, Catarina!
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Saudades, Cris.
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Massa! Que lindo, Catarina!
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Bem eu nao sei se entendi a proposta direito não. É pra publicar aqui mesmo?
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Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.
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Que lindeza de texto!! tão profundo e tão adequado aos nossos tempos!! Gratidão pela concessão do maravilhoso texto, Newton Moreno.
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Uma honra participar dessa pagina linda. Essa coletividade me fez bem. Obrigada por tanto!
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