EntreLAÇadOS


Relato de Experiência sobre a Oficina Pedagogia dos Sentidos

Por Danielly Ferreira de Morais Pinto

Gostaria de compartilhar minha experiência enquanto mediadora e co-idealizadora da
oficina “Pedagogia dos Sentidos: uma exploração sensorial que contribui para o
autoconhecimento e bem estar”, mais especificamente com a abertura da maratona de 3 dias de oficina no último Amar é o Elo, evento promovido pelo LACE (CE – UFPE) no penúltimo mês do ano de 2023.

Esta oficina, de título amplo e polissêmico, é fruto de uma inquietação primeira de
Luiza Villar, que, assim como eu, é estudante de Pedagogia da UFPE. Evidente que a própria Luiza falaria bem mais assertivamente do que eu sobre a gênese deste projeto – que remonta do período pandêmico, onde tínhamos aulas nas gélidas telas dos celulares e computadores -, então vamos pular alguns episódios e dar o Play nesta temporada, onde, já sendo eu a convidada por Luiza Villar para integrar o projeto, chego transbordando de vontade de inserir na discussão sobre bem estar e autoconhecimento mais uma interface: a das Artes Visuais. Para isso, andamos de mãos dadas com as discussões sobre nutrição e formação estética e alfabetização visual como possíveis ferramentas de transformação pessoal para potencialização de experiências de bem estar e autoconhecimento.

O rumo da oficina, então, é trilhado nesse caminho. De caráter mais intimista,
aconteceu com 3 participantes e nós 2 enquanto mediadoras, totalizando 5 pessoas na sala. Esse quantitativo, apesar de comumente não ser valorizado enquanto número interessante para partilha de trabalhos no contexto da academia, sempre nos é algo caro. Digo isso pois já realizamos a mesma oficina, embora que no CTG (Centro de Tecnologia e Geociências), onde o quantitativo também girou em torno desse número e o fato de sermos poucos fez com que nos sentíssemos muito à vontade para o diálogo e a partilha, especialmente em momentos que evocam maior sensibilidade, como quando rememoramos nossas vidas acadêmica e emocional no contexto pandêmico.

Frisada a qualidade relacional obtida pelo quantitativo pequeno de participantes, vou
me ater a outro aspecto interessante também supracitado: o ato de encontrar na experiência existencial pandêmica do Outro um pouco ou um tanto de Si. Isso não acontece somente entre as e os participantes, evidentemente. Pude me encontrar em várias experiências relatadas, percebendo que não estava tão sozinha quanto me sentia estar naqueles anos, principalmente no ano em que fiquei mais de 12 meses completamente isolada e temerosa da Covid-19. Acredito que esse aspecto fortalece e fomenta a reflexão sobre nossos corpos, mentes, almas e corações, enfim, sobre nossos Eus pós pandemia, estimulando, evidentemente, um processo de autoconhecimento latente sobre os resíduos de toda esse momento social traumático em nossa contemporaneidade enquanto sujeitos individuais e coletivos.

Já no tangente ao que conceitualmente e metodologicamente me encanta, a Arte-
Educação, é sempre um encanto perceber a produção e ressignificação de sentidos que as e os participantes vão construindo à medida do desenrolar do momento expositivo sobre elementos visuais e alfabetização visual. Como conhecer o ponto, a linha, a forma, a cor e outros elementos, de forma dialética com alguns dos princípios visuais, tais como a harmonia, a variação, o equilíbrio, a tensão, a proporção, dentre outros, podem corroborar para ampliar os horizontes das nossas visualidades, tornando-as objetos de prazer e bem estar? Eis um dos pontos nodais de discussão que traço durante a mediação. E o que é produzido no grupo é sempre muito rico. Afinal, que capital visual cada pessoa ali presente possui? Que repertório carrega sobre a própria ideia de visualidade? De visualizar? (…)

Desde o início dessa escrita eu já sabia do desafio que seria para elencar o que aqui
cabe ou não cabe. Gosto de escrever sobre o que me toca desde miúda, o que me esmiuçou o olhar para o intrínseco caráter seletivo do ato de escrever. Dito isso, essas palavras não comportam 1% da riqueza da experiência viva e vibrante que vem sendo mediar essa oficina pela Universidade Federal de Pernambuco. Mas espero que você, que nos leu até aqui, tenha sido tocada ou tocado e tenha vontade de participar dessa discussão e partilha na próxima oportunidade. Nos acompanhe e venha conosco! Afinal, como Larrosa nos ajuda a refletir em nossa oficina…

(…) A experiência enquanto possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm:

requer parar para pensar, parar para olhar,

parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar,

e escutar mais devagar; parar para sentir,

sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo,
suspender a vontade, suspender o automatismo da ação.

cultivar a atenção e a delicadeza,

abrir os olhos

e os ouvidos,

falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão,

escutar aos outros, cultivar a arte do encontro,

calar muito,

ter paciência e

dar-se tempo e espaço.


7 comentários em “EntreLAÇadOS

  1. Vou postar aqui mesmo. Depois, eu posso esquecer. É algo que me tem ocorrido com mais frequência: esquecimentos. Eu talvez penda mais para o psicológico nesse relato, porque sou psicólogo, talvez. Então esqueci de cancelar assinatura do Telecine Play (eu assinei só pra ver Bacurau de graça, e esqueci de cancelar depois), esqueci de pagar internet, água, esqueci datas de aniversários importantes (tipo, que eu lembrava tão bem como a minha… e eu não tenho certeza ainda se lembrei. Lembrei nada…), números de telefones importantes estão parecendo aos poucos incertos, estranhos. Eu estou achando isso bem interessante e agradável. Eu acabei de esquecer o nome de Manuel de Barros, um dos poetas que mais gosto. Há uma lista grande de esquecimentos que pararei por aqui. Minha esposa e filha estão usando com muita frequência um tal de TikTok (acho que é isso mesmo) e isso de certo modo as alegra bastante. Eu tenho estudado o idioma italiano e tenho mexido com música e com argila. E tenho estudado psicologia, coisas do doutorado, principalmente. E tenho feito novas receitas. E tenho dado aulas de inglês às duas moças. Muito interessante experiência tem sido esta, por sinal. Estou mais caridoso, mais bonachão, eu acho. Muito preocupado fico em pegar o vírus, não saio de casa, quase. Raramente eu saio, pra comprar comida. Tem sido uma experiência até pessoalmente interessante. Meus sonhos (sonho de dormindo mesmo, mundo onírico) estão mais longos e ricos e, curiosamente, ‘recordáveis’. Gosto que veio aqui outro dia uma borboleta. Estou há seis anos no Recife e nunca tinha visto isso. Meu gato outro dia comeu um passarinho. Nunca mais tinha visto essa cena, de gato com passarinho na boca. Amanheço no quintal e vem às vezes um beija flor beber água numa garrafinha que coloquei para eles. Veio uma manhã um bem-te-vi enorme, amarelão, lindo. A arte tem mostrado mais o que é, para mim. É, ou ao menos parece ser, uma condição humana. Como a água sabe, ou o cálcio. Sem arte, sem ser artístico, a gente morre, eu acho hoje. Comecei Yoga mas não gostei. Não sei se foi a tutora vaidosa ou a série de posições. Chato, achei (que namasté o quê!). Mas tem gosto pra tudo. A quarentena deixou mais fácil lavar a louça. Até varrer. O Brasil está essa loucura até um pouco assustadora. Evito pensar nos desdobramentos próximos. Espero que a gente resista e lute sempre. Amo muito o Brasil e o povo brasileiro e nordestino, principalmente. Acho que estamos muito doentinhos. Uma pena. Morreram pessoas tão boas, como o Aldir Blanc. O Brennand, uma pediatra amiga de mainha, um rapaz trabalhador (que trabalhava muito) aqui do bairro, aquele ator, Migliaccio, por esses dias. O Moraes, rapaz… Só gente boa, morrendo. Eu acho curioso esse movimento. Bem, espero ter ajudado. Acho que tenho sido um bom confinado. Tenho lidado bem com isso. Eu recomendo a todos, principalmente aos que estão se atrapalhando nesse momento; arte. Arte e churrasco e despreocupação e esquecimentos têm me feito muito bem. O celular nesse contexto atual, para mim, ficou mais fraco. Mas talvez funcione bem para passar um trote inofensivo.
    Se cuidem tod@s. Alegria, ânimo e coragem.

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  2. Que lindeza de texto!! tão profundo e tão adequado aos nossos tempos!! Gratidão pela concessão do maravilhoso texto, Newton Moreno.

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